quarta-feira, 26 de agosto de 2020

milimetricamente

 

Estaciono a cadência da prudência

Salpico pitadas de afago

e outras tantas de aconchego


Milimetricamente devaneio

sem medo, com seio

sem freio, nem titubeio


Imprudência?

Não duvido que seja vista dessa forma

por vocês, por eles, pelo espelho

    Milagres do amor do amanhã


                escrita intuitiva 08.06.20

terça-feira, 25 de agosto de 2020

rio

 


Levanto a cabeça

Respiro, observo, comemoro

Não sento, não choro

Não moro


Rio 

rios de alegria

que transbordam-se em sonhos

que podem enfim ser sonhados sem fim

O sonho é livre!

O mar é livre! mesmo por vezes brabo, mesmo por vezes manso


                escrita intuitiva 21.05.20

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

me perdoe

Andavam na rua, largados

Lagartos a se encontrar 

Puxavam ambícios lado a lado

até tudo se atravancar.


Considerações foram feitas

Prosas foram iniciadas

Decisões a serem sonhadas e vivisonhadas

vivenciadas, sancionadas, sonorizadas e destranspassadas


Passos lado a lado

Sambe o pé o que quiser sambar

Quem sabe desse jeito possa

cada um se reencontrar  



                escrita intuitiva 20.05.20

domingo, 23 de agosto de 2020

apesar de mim

 

- Eu sou livre

    Eu sou livre

    EU SOU LIVRE

    Estou te dizendo

    Sou livre, livre, livríssima

    Sou dona do meu próprio nariz

    Posso fazer uma tatuagem no meu nariz


- Não estou dizendo que suas escolhas não tenham consequências, disse ela.


Vítima não

Só se for vítima de mim.

Eu sou livre 

apesar de mim.


sábado, 22 de agosto de 2020

mel e manteiga

 


Séculos se passaram

estonteantes sem trupicar

Estive esperando um momento

o momento certo para ressuscitar.


Quero te contar tanta coisa

mal posso esperar

Tomaremos um café da manhã

nos sentiremos deuses 

Serão relatos de saudades

tempo entre eternidades.


Espero que não me julgues

que não procure em mim algo para desconfiar.


Sirvamos nosso café amargo

e nossa torrada com mel e manteiga.




                escrita intuitiva 11.05.20

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

quanto tempo?

Pode entrar, por que insiste em bater?

Me diga seu nome, de onde vens, o que queres de mim, como posso te ajudar, como posso te odiar, como posso te expulsar?

Veio pra ficar quanto tempo?

Veio para passar tempo comigo?


Quase te soa um castigo

querer entrar pela porta de quem está a te interrogar

Está a duvidar

tem dúvida do que é amar 





                escrita intuitiva 09.05.20

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

pérolas de desatino

 

Contanto que houvesse som

Saberia como deixar fluir

Automaticamente escrevo

Simultaneamente leio

Não há projeto

Escrevo e noto minha cutícula, esfacelada

Ela me olha, mas não comenta nada

Decido também não comentar


Entre rios maravilhosos de disciplina

procuram-se pérolas de desatino

destinadas a florescer no ser

Também não há perigo

Não há falsidades ideológicas

Há sabatina fervorosa do samba do criolo doido


Considero impecável a transmissão de gotejamento no princípio vital

Sinto o percorrer de veias finas, porém poderosas

Enquanto as grossas esfacelam-se tão facilmente quanto cutículas

Sinto uma dor nas costas

(Lembro-me do meu paciente que diz "minha costa")


Minha costa superior direita tem um nó

Ah, meu bem, se estivesse aqui

 para me acarinhar e apertar esse nó contra seu corpo

 beijando meu gemido de dor 



                escrita intuitiva 02.05.20

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

A ema e a cabra


Era uma vez uma ema

E havia também uma cabra

uma cabra mordaz


Juntas elas viviam em uma cabana

Satisfeitas, plenas em regozijo

Transportavam aves de rapina

para o interior das lonjuras


Eram crateras atrozes, vorazes

capataz não tinha vez

tinha era de vez de esquecê-las

e sublimar o acordo


Ema só via era problema

A cabra, apaixonada demais

falava demais

sentia demais

sofria paralisada


As aves eram subjugadas, subestimadas

Eram capazes de levantar vôo a uma montanha

Eram capazes

Vejam

Eram

E tudo ficou como estava

A montanha e a raiva


                escrita intuitiva 01.05.20


terça-feira, 18 de agosto de 2020

ondas tortas retilíneas entrecortadas

 Meu amigo,

Quando chegas torto

ou assim se vê

ou assim alguém nomeou

E você confia - às vezes

em compartilhar comigo, 

uma completa desconhecida, 

a sua vida ou os seus problemas


Saiba

Sou e serei eternamente grata

Com você me vejo torta e me vejo reta

me vejo ondas

a partir das suas ondas 

ou dos seus picos


Você pode achar que você é o paciente

só pelo seu lado na mesa

Você pode achar que tenho a verdade 

pelo meu lado na mesa


Sendo que horas ao seu lado

e ao lado tantos e tantas

verdadeiramente é você quem me ajuda

Você quem me forma psiquiatra 


Antes de você eu não era ninguém 

Com você eu me torno humana 

E agradeço 

do fundo do coração 

e pra sempre 


homenagem a todos os pacientes com demanda de saúde mental

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Seis cordas


Se me vir sorrindo

Saiba que me vi

Me vi lembrando

Reencenando desde o sim


Misturada, 

Sempre essa eu 

misturada de passado e futuro 

Insistindo em conter presentes os pés persistentes em volitar 


Bem vinda,

Sempre tão bem vinda 

essa chegada

a minha 

a sua 

a do entusiasmo 

a do sonho desenfreado 


Abocanho o anzol 

feito peixe absorto de fome 

sangrando gotas ditas passionais 

derramadas esparramadas transudadas


Escuto

Enfim

A voz suave ao fundo

- Calma


Me vi celebrando

As mãos que se dançaram

Os dedos que se ora escondiam sob seis cordas

Ora raiavam sobre a pele 

Tocando gentilmente notas entre lábios 


Me vi ouvindo 

a melodia surtida das ondas 

da consciência 

refugiando-se da mente

sublimada através dos poros

em sons de suor 

- Calmei

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

caso clínico: um sonho rico


- Você percebe que mexe muito a sobrancelha enquanto fala comigo?
- Sim, isso me dá medo e tesão. Isso me dá a sensação de poder.
- Mas como levantar a sobrancelha faz você sentir isso tudo?
- Eu mexo a sobrancelha como me ensinaram, vem como uma intuição.
- E você tem algum outro poder, alguma coisa que outras pessoas não saibam fazer?
- Sim! Eu fui intuído a salvar o mundo da fome e da miséria, basta eu estalar o meu dedo.
- Uau!  Fiquei curiosa e ansiosa, por que não estala seus dedos então?
- Calma Dra. Tem a hora certa para isso. Antes todos terão que acreditar em mim.
- Imagino como deve ser difícil quando os outros não acreditam. Você alguma vez teve essa experiencia, de ver alguém tão poderoso mas que as pessoas não conseguiam acreditar nele?
- Já! Jesus é como eu, eu o conheço.
- Como você o conheceu?
- Ele apareceu no meu sonho. Eu estava nu em um espaço muito sombrio, com raios e trovões, a mata estava toda queimada. Vi ao fundo um casebre mal cuidado e decidi entrar. Lá dentro havia dois homens ao lado de uma mulher. O homem que estava à direita da mulher segurava seu calcanhar e eu pensei: aí tem coisa! Em frente a eles tinha um jarro de barro vazio, e eles três estavam sem forças, esfomeados e desnutridos. Eu perguntei: como posso ajuda-los? Eles diziam "alimente-nos". Respondi que "sou só um homem nu, como posso ajuda-los?". "Alimente-nos", eles responderam. 
Então decidi pegar o jarro e sair da porta em busca de comida. Lá fora eu encontrei o Paraíso: os trovões deram espaço a um grande céu azul, com pássaros, águias e la ao fundo encontrei uma fonte de água. Fui até ela, porém no caminho veio em minha direção uma mulher ma-ra-vi-lho-sa que me saudou com muita paixão, dizia que sentiu minha falta e me chamou para tomarmos um banho de cachoeira. Eu a expliquei que eu iria alimentar pessoas que estavam no casebre, então era pediu para que eu a esperasse que ela me acompanharia. 
Esperei por horas e nada de ela chegar, então fui até a fonte. Enquanto eu servia o jarro com água, encontrei um brioche cintilante e decidi levar comigo. Já no caminho para o casebre, a mulher novamente me encontra, oferecendo um ovo cozido para eu levar aos famintos. Não conseguia abrir a porta do casebre pois meus braços estavam ocupados, então o homem que segurava no calcanhar da mulher abriu a porta e disse "Sempre soubemos que você viria". O segundo homem repartiu o brioche em três, servi água a eles e disse que só havia um ovo. O primeiro homem disse "este ovo você deve alimentar a mulher". Então ofereci o ovo na boca da faminta, que imediatamente recuperou seu vigor, e como eu sei disso? Os peitos dela se estufaram na hora. Então o primeiro homem também se revigorou e disse: Agora eu darei as costas para os homens, pois preciso descansar; agora você está incumbido de salvar a humanidade.
- Este era Jesus? Perguntei após não interrompe-lo por quinze minutos de história, ansiosa pelo rumo do sonho.
- Não, este era Deus. Eu soube pois quando ele falou eu senti temor. Jesus é igual a mim.

ID:
D, 33 anos, solteiro, sem filhos, técnico de produção afastado do trabalho, ES incompleto de Teologia, natural e procedente de São Paulo, mora com os pais, protestante.

HPMA:
Paciente teve seu primeiro episodio psicótico em 2014 aos 30 anos, ficando 15 dias internado; teve o segundo episódio psicótico em 2017 ficando 23 dias internado, em ambas as situações se apresentava com taquipsiquismo, redução da necessidade do sono e delírios messiânicos.
Família não sabe referir dosagem das medicações corretamente, aparentemente paciente
vinha fazendo uso de três remédios, porém há dois meses  houve a troca de um deles, culminando em um novo atual surto, francamente delirante, com taquipsiquismo, redução da necessidade do sono, agressividade verbal, fervorosidade religiosa (falava alto e gritava amém durante louvores), sexualidade e gastos excessivos (gastou R$6000 na semana).

EP:
Encontro paciente com contato fácil, atitude sacerdotal, vigil, predominantemente colaborativo, hipertenaz, normovigilante, com orientação em tempo espaço preservada, orientação do eu  prejudicada (perda da oposição eu-mundo), memória delirante (conta de um sonho de revelação divina que se confunde com a realidade), afeto lábil de humor eufórico a disfórico, pensamento agregado, acelerado, com delírios de grandeza e de salvação (Deus lhe revelou a missão de salvar a humanidade da fome e da miséria com o instalar de dedos, contanto que todos acreditem nele) e algo persecutório, pseudoalucinações auditivas de Jesus e Deus que se comunicam durante todo o dia com missões (inclusive o pedem para mentir e para não contar tudo o que sabe), psicomotricidade aumentada (movimentos de sobrancelhas que diz despertarem nele “tesão, medo e poder”, que alguém aparentemente o comanda realizar), hiperbúlico, pragmatismo prejudicado, pouca critica, razoável noção de doença.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

sob uma copa de árvore

uma premissa da psiquiatria é a de que, sob um estado neutro e de não julgamento,
consigamos empatizar com os que falam.
quanto mais brandos, mais lógicos e mais sensatos, mais fácil de se estabelecer uma conexão

pessoas francamente intoxicadas, eufóricas, alucinadas, delirantes, irritadas ou agitadas dificultam, mas não impossibilitam, os humanos atos de se comunicar e empatizar

há uma classe de comportamento que hoje é compreendida como antissocial
na qual, o que há de desumano e imoral no outro, não encontra destino de identidade em nós
salvo quando está igualmente presente e operante tal imoralidade no ouvinte

é lindo quando encontramos ao nosso redor aqueles que se parecem conosco
aqueles nos quais nos encontramos e nos espelhamos
torna fácil, inclusive, uma tarefa de se eleger um semelhante à cadeira de líder

não consigo compreender de forma alguma o que o candidato B diz ou defende
tentei, seguirei tentado, mas não só seus argumentos
mas sua forma, que não encontram em mim receptores compatíveis

voto na brandura, na sensatez, na vida e na justiça
é prioridade, no momento, que possamos estar 
vivos e livres
para que, dignamente, possamos usufruir de 
secundários ganhos mercantis e econômicos

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

100º: Troquei a roupa, escrevi, dormi, sonhei:

Houve uma grande polêmica do Bin Laden. 
Muçulmanos tinham novamente ganhado muito ódio.

Passou a valer uma nova regra: sua casa seria invadida no momento em que alguém lá dentro comesse chocolate (assim pensávamos) 

Pelo menos na casa de algum fulano havia sido assim
Pingou chocolate na pia 
Estes sem teto e sem rumo entraram e levaram tudo o que podiam 
Gás, comida, roupas, perfumes

E o nervoso de que chegassem na minha casa? 

Chego no hall do prédio, minha porta está aberta
Chamo e não tem ninguém dentro 
Entro e está tudo fora do lugar 

Dois homens então saem do apartamento da frente entram na minha casa e me cumprimentam

Peço a eles que tenham misericórdia 
Não deixaram nenhuma comida, levaram tudo e o gás da cozinha 
Eu disse que era médica
Um deles chorou e disse que ele estava procurando tratamento para cacofonia mas não tomava remédio, eu também chorei 
Este mesmo, quando falava, encostava muito a mão no meu corpo
Tive a coragem de pedir que ele parasse disso
Ele só parou na segunda vez 


Entrei no quarto querendo esconder coisas de valor dentro do box da cama: 
como pode até o colchão pesado e feito sob medida foi levado? 
Aí eu surtei
Fui lá fora e gritei 
Onde já se viu
Eles passavam fome ou passavam ganância? 
Levem minha comida mas não minhas fragrâncias 

Não tinha grito para ser acolhido
Todas as casas seriam invadidas 
Essa era a nova ordem 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Tira logo a roupa

mostra a pele e a veia rota

Toma o rumo exato
Este seu certo é errado, dizem
Tem abismos catastróficos

Tira a roupa
Mostra o broto de peito já exausto
o estômago ardido de lágrimas alcalinas
Engole o choro

Aceita o cinto marcar o pecado
Colhe sua violação na vida adulta
Escolhe o caminho certo dessa vez
Recolhe seus trapos do chão

Seca esses olhos sofridos do prazer
Reúne o pensamento decapitado 
Não olhe para trás: 
este crime foi você quem cometeu

O dia do juízo final vai chegando
São minhas sábias mãos que chicoteiam o desvio
Deus fala através de mim
Não tenho medo, tenho conhecimento e honra 
Tenho fé de que tudo vai dar errado

É meu cacete que manda
ele que ensina
ele que comanda a hora da alegria
Seu buraco torto é que está íntegro em demasia

Essa sua casa não parece a minha
De onde venho há celas
Moramos presidiários de tormentos
Conosco habitam nossas excretas 
e o muro é alto demais para que as desprezemos

Sua rebeldia é uma maldição
Tira essa vestes suja e transgressora
Cobre suas ideias de latão
com minhas verdades de ouro

Nossos pais criaram filhos magníficos
Meu pai do céu me disse
Não estou delirando
A palavra certa é educando

Falo manso
mas não me provoque
não seja você
seja eu

Entrei em depressão
mas estou sempre no auge
mesmo minha escora é cume

Tira essa coroa
Tira os dentes
Tira o ar
Enforca, espanca, rasga, mata
Tudo seu é condenável

Asa é para aterrizar 
Boca é para fechar
Braço é para largar
Coração é para acumular
Cu é para cagar

Ajo por meios justos
herdei esse dom dos meus pais
e dos pais dos meus pais de três mil anos atrás

Sei mais que todos aqui
que o que é certo é certo
e o que é errado é seu

sexta-feira, 27 de abril de 2018

acrobático

Mergulhada em teus braços, submergi à cobertura 

O desejo era circense, pela liberdade de pairar no ar 
em sensação de queda iminente, salvação recorrente
Solidão entre um giro e outro.

Quando subo, não vejo nada que me segure nem nada em que me pendure
Vejo duas moças, talvez gêmeas, castanhos cabelos presos em rabo de cavalo
Cada uma em uma esquina do edifício   
sentadas em seus rubros tecidos acrobáticos
Não se balançavam, não rodopiavam:  mantinham uma assimétrica e cérea postura 

Impressionada por tamanha harmonia, verifiquei se havia qualquer rede que as segurasse caso elas caíssem 
Não havia rede
(havia harmonia?)
Procurei então meu tecido rubro, que decerto estaria pendurado nos céus
Não havia 

Havia somente a mim
ao centro
Me despedindo da aventura sequer ofertada
Admirando as relações das moças em seus ousados relacionamentos serenamente dissimulados
Não havia respostas, não havia redes, não havia giros, não se previam quedas
Apesar de haver movimento
não havia  perigo
Somente havia o infinito céu sobre mim
e o horizonte que te apontava crescente