quinta-feira, 11 de novembro de 2021

pai e mar

Tenho medo da morte e custo a aceitar 

Custei a notar

Custei a esconder, afinal


Custei, custei

Custei de mim 

Justificando não mais querer crer em céu e inferno 

Como fosse isso que me amedrontasse 


Mas não é isso não

Pelo menos não só 

E nem maior parte 


É camada abaixo de camada de custos subaquáticos 

É o medo de perder pai e mar 


(curioso que escrevi mar, acidentalmente) 

É o medo de perder o chão, a terra, o mar, o sorriso tenro, o olhar atento, o amor exagerado, o amor por vezes não justificado

de perder com a morte dos pais todos estes pedaços depositados na história e que tão bem lhes veste


Medo de me arrepender 

De feitos, não feitos, desfeitos 

De defeitos que jamais uma vida bastaria a concertar 


Mas o medo sobretudo 

Ou debaixo de tudo, pensando em camadas 

É o de sentir amor 

senti-lo verdadeiramente

 E o grande segredo deste é que todos hão de

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

hesito

Deus, 

Dai-me clareza para encontrar os céus e os sóis escondidos sob minhas carregadas nuvens


E coragem 

Para enfrentá-las

talvez chorá-las em terra fértil 


Até então mudas

Como respondesse “Sim”

Deus balança as águas do Tapajós em ondas que tilintam gentilmente  e noutras que me molham por inteira


Deus segue: 

- Começa assim mesmo: é banho gelado, corpo temido e tremido pelo ar da mudança, mas logo te aqueço

Confie 


Retorno caminhando e logo encontro minhas pegadas da ida 

Tento segui-las repetidamente

é confortável pisar na areia pisada 

Até que por vezes o registro claudica, falta um dos pares  

como que eu voasse entre uma e outra 


Então mesmo quando parece que repito

também hesito 

e nesse momento se faz a oportunidade de criar algo 

em novo sentido


Daí-me coragem

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

a aliança escorrega

cerco

desconforto

insatisfação

dor

inclemência

insegurança

impotência



O que precede a impotência?

Um grande sentimento de solidão

Sequer pôde ser um protagonista

afinal

não há outros atores coadjuvantes.


No palco, atua só

rarefeito de luz

de objetos

de ar

de vínculos

a cena é triste, solitária,

de ensurdecedor silêncio.


Foi mandatório, dentro de si,

antes de mais nada,

atrair pessoas ao seu redor

a fim de não s u c u m b i r .


Ignorou e hoje desconhece seus desejos

concentrou todos seus esforços em garantir aplausos.


Na primeira fileira estão seus parentes, com acesso ao camarim.

Mas

uma fez fechada a cortina de veludo bordô ,

retorna à destrutiva solidão outrora outorgada. 


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

achuva a terra

 a chuva aterra

mergulha, gota a gota, pelos sinápticos lençóis freáticos

carregando, dentro de cada uma, oceanos da nossa atenção

para os submersos terrenos desconhecidos


seu som hipnotiza a mente tagarela

que, ninada, põe-se a se dissolver de seu ambicioso controle 

cedendo ao silencioso centro da terra

centro de si e centro de tudo


discreta e disfarçadamente,  a água retorna aos Céus

também gregária, 

se manifesta doce como o algodão,

preparando-se para trazer ao solo 

novamente 

sua sabedoria cíclica

gota 

gota

terça-feira, 14 de setembro de 2021

papel de arroz

 

,

feito uma ,

não se coloca posta de início

não se coloca como um fim

está sempre entre

algo , algo

(ou alguéns)


ao dispor

à merce

dependente de quem a carregue por ambos os lados


nunca

jamais

estará a

,

no destaque


ocorre até que acidentalmente

na escorregada da caneta sobre o papel

(de arroz)


aqui no entanto lhe abro uma exceção

será destaque

será sozinha

no entanto inteira

posta no início

colocada como um fim


,

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

vírgula

 frágil

vulnerável

feito papel de arroz

a umidade destrói

engruvinha


despedaça de forma que

desaparece

derretendo-se em si

invaginando-se

deserotizando-se




terça-feira, 17 de agosto de 2021

vinte e seis

 

Ela tem vinte e seis

Gosta de Jazz

É enérgica

Sente cólica

E tem cara de Marta


Essa cara que faz umas caras

que ele não gosta

ele também tem vinte e seis

Passa um furacão


Passa dois, passa três

Ela é de esquerda

pelo menos com certeza não votou naquele que não merece ser nomeado


Ela pedala livremente

mas como a queríamos tombada

esborrachada com a cara no asfalto hospitalar

que o furacão a retomasse de pé


Ela esfrega as mãos

nervosa, friorenta

pensa no café, já frio

enruga a testa, parece brava


Os olhos que sobram da face mascarada

são também cobertos por algum véu

que se mexe rápido demais na ventania

às vezes expõe demais

às vezes recua demais


Dói quando ouve que dá medo

assim como lhe disse sua mãe e um garoto da escola

engole saliva amarga com gosto de choro

que fica doce eventualmente


Não sabe o que sente

Não sabe quem é

Não sabe sobre essas tais das relações

Não sabe de nada

nem mesmo quanto vale a vida


Essa vida de merda, ele diria

ela

ela não sabe nem responder 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

débito aberto

Essa coisa Rê, que não tem nome. Por um lado é uma delícia me sentir livre em ser quem eu sou a hora que eu quiser (será?). Mas honro tanto o quanto aprendo dentro das relações e pra isso, precisa não de nomes, mas de referências dentro das relações 

- Uma falácia achar que não vai ter molde. Não é da ordem se ficou com alguém ou não...

Fico sem referencial 

- É só o acaso? 

Sei que ninguém se pertence, que ninguém tem que estar aqui nem ali nem quando.  Mas eu queria saber aonde está pra mim. Tenho aprendido com minha gula que hoje prefiro degustar mais cada situação. Poder vivê-las o mais verdadeiramente possível 

- Se apaixonar não é do ego . Tem uma lógica narcisista do não ceder, do não se arrebentar. Eu adoro me arrebentar. Querem intensidade mas não querem entrega...E a conta não fecha. 

É, a conta não fecha 

- Financeiramente não vale a pena se relacionar 



sábado, 26 de junho de 2021

eclipsada

Que angústia é essa?

Dilacera o peito

só de não ter notícias suas há poucas horas


Dói como eu inexistisse no período

Dói como rejeição

Dói como ficasse eu pontilhada


Dói como todas as mulheres do mundo estão agora interessadas em você

e você nelas em uma pandêmica orgia orgástica desprotegida sifilítica


Dói como se, para na hora do prazer, o contraste se fizesse prazer por si 

e por isso, dói como que estrategicamente projetado para doer e contrastar prazer


E que vazio é esse que surge também em contraste à sua presença? 

Por que então te chamei para preenchê-lo?


Mas que caralho, não?

Esse tal de tampa e destampa


Já sei sim, mentalmente sei que não ando em círculos, mas em espiral

Mas 

na hora de experienciar é a mesma danada roda redundante que cicla em si e dói igual



quarta-feira, 23 de junho de 2021

podem me levar (se)

Se chamam de louco

Quem em sua caminhada vive tropeçando em amor

E se loucura for crime 

Podem me prender 


Se chamam de bruxa 

Quem dança para o fogo e para a Lua

E, ironicamente, se seu destino for a fogueira 

Podem juntar lenha   


Se chamam de pecador 

Quem honra a absolutamente tudo o que vive, tudo o que não vive, tudo que se escuta e o que não se escuta 

Absolutamente todo o gerado pelo Um 

E se o pecado for uma desonra imperdoável 

Quem desse universo abundante não perdoaria?


Se for julgado

Quem colhe da fumaça sopro às sete direções   

Quem mobiliza do rio energia 

Quem sangra na terra 

Faz cantando 

Faz vibrando

Uivando 

Entoando 

Quem recebe Deus 

Está Deus 

É em Deus 

E é Deus  

(...)

Condenem-me 

Estou liberto









sábado, 19 de junho de 2021

querido diário (ou Aho Grande Espírito, Aho Pachamama)

Tenho sido acometida por um sentimento muito grande

Interessante que falei “grande”

Nem bom nem ruim, porque eventualmente o vetor se desloca nos eixos das múltiplas dimensões 


É tão grande que vai de ser caudaloso, muito poderoso, de muito Amor, de muito amparo 

De alívio

Para a sombra da represa deste rio 


Às vezes se confunde com paixão, quando está sombreado 

Às vezes sinto uma saudade 

Tão grande 

Que incomoda 

e revela um buraco 

De um dos buracos que não foram preenchidos mesmo neste estado despertado de Amor


É gostoso o adolescentil permitir-se a passear por essa floresta de rios 

De animais selvagens 

De cipós e folhas 

De Lua escondida 

Limpar-se de lama 

Rugir de volta

Sem vergonha

Sem nada 


Mesmo

Com buracos

Com buracos tapados - por quem? até quando? se quem, se quando 

Com vales e dunas e fossos e falésias 


Natureza, sou parte dela 

Sou e vivo esse vetor dançante

E bem vindo seja o sentimento grande 


quinta-feira, 17 de junho de 2021

me fascina 

o gingado calmo com que danças no tempo 

me leva a dançar como folhas bailando ao vento

sem pressa

só movimento 

de contentamento 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

virar mar

sou muita água

a sombra disso é represar

vou sendo rio até cachoeirar 

ou então virar Mar 

sexta-feira, 12 de março de 2021

será que sou sereia

 

Me ocorreu algo louco agora 

Se será que sou sereia 


Quando pequena eu queria muito ser sereia, ou ser fada

Mas queria mais ser sereia 

Cantar debaixo da água 

Navegar com a minha cauda


Será que além do feitiço da noite, 

peguei o feitiço do peixe


Sempre tão pronta a cantar, com meus olhos, a algum marujo que caísse no mar por mim? 

Safa dos anzóis

Meio humana meio peixe

Escapo deles e aliás os manipulo


Quase um poema 

Mas me ocorreu nesse exato instante

domingo, 7 de março de 2021

 

A                    terra

A                    mar

Respir             ar

Bri                  luz

sexta-feira, 5 de março de 2021

A raiva, a culpa e o castigo

 

Sentindo raiva do que me fizeram

Culpa por ter deixado que o fizessem

Sentindo raiva por ter culpa

e culpa por ter raiva


Esse meu eu raivoso decide então aplicar um castigo

a esse meu eu culpado

O raivoso teima que castigar é necessário

O culpado confia que é necessário ser castigado


E assim foi montado o júri interno

em que nenhum convidado da defesa foi convocado

sequer há defesa, visto que a sentença já veio posta


A raiva aplica o castigo ao culpado

Todos saem neuróticamente felizes 


quinta-feira, 4 de março de 2021

uma carta

 
Hoje tomo fôlego, sem tanto esforço quanto tentei tomar nos últimos dias.
Acabo de ouvir de um professor que nós digerimos questões psíquicas de forma parecida ao nosso trato gastrointestinal.
Então te digo que desde dezembro eu fui exposta a muita coisa, pouco a pouco digerida. 
Aquilo que me nutre fica, o que não nutre, sai.

Teve hora que tomei veneno, mas o veneno me nutriu
Teve hora que tomei um doce suco de laranja, mas que tão logo amargou a boca.
E hoje tentarei enfim te mostrar as partes que já enxergo.

Sobretudo, algo foi visto. Pude ver, desde então, em mim e nos meus padrões, processos dos quais gostaria de eventualmente me despedir - mas primeiro preciso aprender a lidar com. 

Tamanho foi olhar atencioso que venho podendo repousar sobre mim, que parece que desviei o olhar que era até então para fora, de volta para dentro.
Assim, venho vivendo meu mundo interno com certa intensidade nas últimas semanas.

Fico brava comigo mesma porque não estou mais fazendo meu zazen diário, sei que isso é parte da resistência, parte da anestesia que procuro (mesmo não querendo procurar).

Parte dessa resistência vem porque me percebo tendo tanto a melhorar que assusta. Que freia, que aperta pra voltar a fita. 

O que não deixei de lado foi meu anel, minha aliança que comprei para simbolizar um acordo comigo mesma. Na aliança está escrito Aterra 45°.

E é nessa terra que agora me encontro.
Convites como o céu/seu que pedem que meu olhar se eleve, encontre o outro, por enquanto, não está saindo. Logo logo deve sair, mas sei que ainda está como que um imã sendo puxado ao solo.

Quero dizer com tudo isso que nas últimas semanas tenho dado menos conta de demandas externas. Estou mais distante, mais pra dentro. Meu coração foi recentemente abalado por algumas situações. Em outros momentos esse mesmo coração bate forte em situações aleatórias, como se eu fosse invadida pela alegria de alguém que pensa em mim. 

Tem um banquete me sendo oferecido pela vida. Mas ainda estou dando um gole e uma beliscada por vez.

Um dos pratos, assim que dei uma garfada, me pareceu tudo normal. Logo, passei a digerir algo dela, difícil de digerir. Ainda não sabia dar nome, talvez eu ainda não saiba. Mas combina certa angústia com outros sentimentos também.

Me vi num lugar familiar, me vi vilã, me vi vítima, me vi fria, me vi raivosa. Minha parte mais externa vibrou contente com quando podemos nos desamarrar de amarras por vezes colocadas, noutras por nós escolhidas.

O também familiar sentimento de culpa trouxe uma paralização. Me vi vulnerável se qualquer passo fosse dado. Como que eu "não queria ver com meus próprio olhos" os fantasmas que estavam então se formando.

Não queria ver o fantasma de um encontro ser indigesto. 
Não queria ver algo que até então não vi. 
Não queria ver o óbvio e nem a ilusão.
Fiquei constipada, e ainda me sinto assim em alguma medida.

segunda-feira, 1 de março de 2021

mas

violento 

o amor te empurra ladeira acima 

Mas

perde-se assim o platô 

perde-se o nível do mar


erva-daninha

o amor não pede licença 

Mas

morre a linda e inodora rosa 

morre o ideal de jardim e o jardim ideal


Mas

Se mesmo assim tentar dele escapar

será no momento em que desistir 

que aprendes a confiar


no momento em que se solta da mão a bigorna

alada de amor, se permite à alma flutuar


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

arvoresço

 De tempos em tempos troco minhas folhas

ora cresço

ora floresço

enraizo e me achego

cada vez mais aqui

cada vez mais em mim

cada vez mais matriz


De tempos em tempos

me aproximo do céu

não me meço

não me cobro

consinto a história carregada na semente

e nutrida pelo solo


Subo até onde puder respirar

me ocorre um fruto

Semeio