solidão
solidez
não se pode falar só sobre o fogo
se há fogo, ainda há casa
Desceria na estação Paulista, tudo normal como sempre. Medular até a baldeação.
Segundos anteriores me ocorrera a agradável - parecia agradável - lembrança de uma frase marcante, dentre várias, de hoje: “A morte é o centro da minha vida”.
Abro os olhos e me vejo completamente perdida, espacial e internamente. Eu já não estava dentro do trem: estava do lado de fora da estação errada. Não havia baldeação, não havia retorno, não havia saldo.
Tentava recalcular a rota mas não sabia nem onde me perdera. Esfrego as mãos na cabeça na tentativa de delimitar meu corpo existente dentro de um complexo mundo óbvio. Havia me perdido nesse lance de vida e morte: si-mul-ta-nea-men-te encarnadas. Ou também, caso eu queira me alienar de mim mesma, na estação Oscar Freire.
Afinal, não foi agradável assim: no ato, adiantei a morte para uma estação antes. Ela é tão intolerável que às vezes só queremos que ela chegue logo e acabe com essa paúra.
13:38 agora, aterrizo na estação Ana Rosa, em mim também.
Parte I
Somente pelos corpos colados se intimam
Se engraçam
se invadem
Se perdem
se evadem
Se contorcem
se misturam
Se penetram
se molham
Se aterram
Se incendeiam
Se encontram
se são
Somente ali
se verdadeiramente são
A si, cada um
também a ambos
Vislumbra-se a perdição da tentação da tão união da paixão
Parte II
Infelizmente, somente ali
Tanta falta de intimidade
sequer é possível se invadir
no corpo não tocado pela pele
a intimidade evapora
nem pernilongo
nem formiga
nem muriçoca
ou mesmo borrachudo
coça mesmo feito picada de mutuca
- demora muito?
- demora fundo
Revivo nossas memórias no repeat
tentando enjoa-las
Como música que é incrível, como você diz, “muito intensa no começo”
mas de tanto tocar
evolui de música favorita para música insignificante ou até repulsiva
Mas essa história que dou play
da que teve e da que não teve
Parece ser como aquelas músicas
Clássicas
Eternas
Inenjoáveis
Cada vez que escuto percebo um encanto em algum canto
e lamento que toda música tem que acabar
- Rhye, Song for you
- Freya Ridings, Lost without you
- Portishead, Glory box
- 5 a seco, Pra você dar o nome
- Marisa Monte, É doce morrer no mar
Que é melhor
Do que sofrer de saudade de mim como eu tô de você
Essa dor eu não quero pra ninguém no mundo
Imagina só
Pra você
Quando voltares
se voltares
estarei melhor
Não por causa de ti
mas também
Enquanto isso a gente vai fingindo que o outro não existe
esquece do filme, há de ter ficado em cartaz eternamente
esquece, se é que é possível, do nosso toque incendiário
Até que, pouco a pouco, borramos a memória dos nossos rostos
a conversa do whatsapp vai ficando longe, perto de outras pessoas esquecidas
o waze não sugere nossos endereços
o teclado não sugere teu nome, sugere sílaba única, dor
Assim a vida vai imitando a arte
e há de imitar nossas forma-pensamento-fingimento
Como me sangra a Bruna (enquanto espero que nunca chegue nenhum dia se não aquele primeiro):
Eu também
me sentiria presa à culpa do sonho que não se seguiu
à raiva por quem não deixou sê-lo
ao amor que sustenta toda essa ilusão
Ou essa intuição
Ou mesmo esse destino
Não sei por que dizes que não
afinal, falar isso, que já passou
não há de ser real
"Não queres me magoar", acredito
quando quero ver teu traço zeloso
"Não acessas isso", acredito
quando penso que você falava sério que terapia te faria um bem
Não pretendo disputar com seu amor,
seu sonho,
e seu sonho de amor
Respeito o seu
assim como o meu
Desejo que ambos de nós
ou, pelo menos um,
encontremos aquilo que hoje
ambos desacreditamos existir
Estamos blues
Eu, blue por ti
Você, por ela
a mancha de cerveja derramada na varanda: está pegajosa demais, atraiu formigas
a garrafa de coca no carro, da praia: só não andei dirigindo, então não a vejo
a mecha de cabelo gentilmente acariciada: lavei
a fronha do travesseiro: faxina hoje
as mensagens que chegam nos sonhos: hoje mudaram completamente, agora aterrorizantes
cheiros de apego parte II
uma poesia por dia
uma prosa imaginária por noite
essa tal presença na ausência
inclusive agora se faz
mais concreta que outrora
te sinto, te ouço
sinto o toque que cafuneza
tão forte quanto escuto tuas respostas
que chegam às vezes a doer como tapas secos
pena que, por vezes, escuto borrado o eco do silêncio
se confunde
"ão, ão, ão"
estarias dizendo "pega minha mão, ão, ão"
ou o que diz é
"não me procure não, ão, ão"?
sei lá eu, só escuto ão
deito de volta ao mundo dos sonhos onde se pode voar
"ar, ar, ar"
acabar?
voltar?
dançar?
falar?
ignorar?
sustentar?
ficar?
matar?
tratar?
sonhar?
cozinhar?
piranhar?
sabotar?
fumar?
cuidar?
pirar?
gorfar?
espanar?
bancar?
chorar?
gozar?
que porra de eco "ar" é esse
os laivos do Sol que se vai
entre prédios
atrasam tua terminal presença
(eu insisto)
os laivos do sangue que escorre
de mim
antecipam minha cíclica melancolia
(não controlo)
solar, as vinte e quatro que poderiam ser mil horas
lunar, os vinte e oito que poderiam ser mil dias
(não puderam)
tua presença
poente
minha sentença
descamada
De nós, que não chegamos a ser
sobram nós na garganta
Coração engasgado
Ando confusa, bem confusa
E agora faz como?
Com a saudade?
Com a vontade de conversar?
De dançar ou de rir ou de chorar na sua companhia
Faz como?
Será que está tudo conjugado no passado, mesmo?
“Estava, amei, era, foi”
Seu olhar está fotografado aqui dentro, no presente do indicativo
e até no gerúndio
e eu amo essa fotografia
Queria te ouvir mais falar das suas feridas, te beijar e dizer que dói mesmo e que vai passar
e, quando quisesse, estaria ao seu lado, segurando sua mão
Queria você-pacote-completo:
amores, dores,
doçuras, amarguras; todos os sabores
Queria viver uma dor e um amor juntos.
Te mandar uma carta de amor.
Receber um café da manhã sem dor.
Queria
e se você alguma hora quiser
quero
a brisa gostosa do vento
hoje
dói
sobre a pele
do corpo que se percebe corpo
descorporificado à medida que se dissolve na saudade
de quem eu realmente queria
que me tocasse
como brisa gostosa do vento
à flor da pele
à árvore paraense da pele
a mancha de cerveja derramada na varanda: não limpo
a garrafa de coca no carro, da praia: não jogo
a mecha de cabelo gentilmente acariciada: não lavo
a fronha do travesseiro: não troco
as mensagens que chegam nos sonhos: não mudam
cheiros de apego
- Me parece que você está muito triste hoje. E o jeito que você conhece de lidar com a tristeza é se machucando ainda mais.