sexta-feira, 11 de março de 2022

sóis e luas

os laivos do Sol que se vai

entre prédios

atrasam tua terminal presença

(eu insisto)


os laivos do sangue que escorre

de mim

antecipam minha cíclica melancolia

(não controlo)


solar, as vinte e quatro que poderiam ser mil horas

lunar, os vinte e oito que poderiam ser mil dias

(não puderam)


tua presença

poente


minha sentença

descamada


quinta-feira, 10 de março de 2022

café da manhã sem dor

De nós, que não chegamos a ser

sobram nós na garganta 

Coração engasgado 

Ando confusa, bem confusa 


E agora faz como? 

Com a saudade? 

Com a vontade de conversar? 

De dançar ou de rir ou de chorar na sua companhia

Faz como? 


Será que está tudo conjugado no passado, mesmo? 

“Estava, amei, era, foi”

Seu olhar está fotografado aqui dentro, no presente do indicativo

e até no gerúndio

e eu amo essa fotografia


Queria te ouvir mais falar das suas feridas, te beijar e dizer que dói mesmo e que vai passar

e, quando quisesse, estaria ao seu lado, segurando sua mão

Queria você-pacote-completo: 

amores, dores, 

doçuras, amarguras; todos os sabores


Queria viver uma dor e um amor juntos. 

Te mandar uma carta de amor. 

Receber um café da manhã sem dor. 


Queria

e se você alguma hora quiser

quero

quarta-feira, 9 de março de 2022

à árvore da pele

a brisa gostosa do vento

hoje

dói

sobre a pele

do corpo que se percebe corpo

descorporificado à medida que se dissolve na saudade

de quem eu realmente queria

que me tocasse

como brisa gostosa do vento


à flor da pele

à árvore paraense da pele

terça-feira, 8 de março de 2022

e não sei se, nem quando


a mancha de cerveja derramada na varanda: não limpo

a garrafa de coca no carro, da praia: não jogo

a mecha de cabelo gentilmente acariciada: não lavo

a fronha do travesseiro: não troco

as mensagens que chegam nos sonhos: não mudam


cheiros de apego

segunda-feira, 7 de março de 2022

primeira segunda

 - Me parece que você está muito triste hoje. E o jeito que você conhece de lidar com a tristeza é se machucando ainda mais.

domingo, 6 de março de 2022

tão cedo

o chinelo, dessa vez, ficou no capacho

e eu, como de costume, deixei a porta aberta

apesar de uma chave por dentro e uma chave esquecida por fora


você já não esqueceu mais nada aqui em casa

nós já não tínhamos um segundo encontro marcado mesmo antes do primeiro

o último beijo já tinha sido beijado, 

eu só não sabia ainda

(mas sabia de alguma forma)


pode entrar

pode trancar

não, não pode entrar

não pode partir


não tão cedo

não tão tanto


mas não teve como

a porta destrancada foi aberta

o chinelo já estava ali

a chave de dentro seguiu imóvel

enquanto as lágrimas se moviam em busca do mar 


você chegou molhado de água de cima

saímos molhados de água da dentro  

sábado, 5 de março de 2022

maquiagem

Segurar delicadamente o pincel 

que repousa sobre o

quadro do rosto e da alma 

Pintar-se 

Se arter

sexta-feira, 4 de março de 2022

tenho sido uma companhia agradável e agradada aqui dentro de mim

Sempre que o odiado se manifesta 

o odiento se manifesta 


E quem se manifesta quando ambos adormecem 

ai dentro 

de ti?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

carta à mãe

o que aconteceu foi

que temi te amar


temi que, te amando, te destruiria

afinal, uma hora você estava

na outra, partia


achei que a cada partida me dilacerava

talvez fosse uma vingança, um castigo? e já alia nascia

em mim a noção de pecado

(ou assim mais tarde fui nomear algo já familiarizado)


não quis me sentir digna

não quis nunca mais botar pra dentro

algo que vinha tão sincero

tão humano

tão materno


passei e ainda passo anos

em que, sempre respondendo mal a todo tipo de restrição,

compensava, compulsivamente, arrecadando tudo aquilo que insisti em descartar

e bota pra dentro, bota pra fora

pra dentro de novo, pra fora de novo

até chorar

até sangrar


linda e metaforicamente

a vida vai se manifestando


e agora vejo, percebo, ilumino

(mas, tenha paciência, aos poucos elaboro)

o quanto eu quis ser medonha

por ser medrosa

por ser voraz

por ser insaciável

por ser frágil

por ter inveja

por ter um horripilante temor de sucumbir


me perdõe

por esse amor que rejeitei

persistentemente empurrei da cama

lamento muito, até o asfixiei

fui bruta, precisei ser

sentia que estava me defendendo de algo que eu não suportaria


e hoje me pergunto

será que amor é mesmo um perigo tão grande que eu não possa tocar?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

horta de segundas e quintas - e quem sabe um novo horário

 - você não teme que te deixem,

isso você projeta nos outros

porque é você quem se assusta com o perto demais (do broto amoroso)


- e não é do medo de que te vejam os defeitos,

é de que você não possa tolerar a ruína

da sua ideal perfeição (da voz-deus-mau-interno-enlouquecedor, que é sua agora)

[ voz da narradora: quanto mais esforço pra me tornar essa anja, como você diz, 

mais acaba que afasta mesmo, isso vem pra somar na estratégia de arruinar tudo

pra me proteger desse broto desconhecido] 


- quando exercita esse broto de amor,

você imagina que vão usar isso contra você

mas não vão


- você não quer mais carinho de alguém,

você quer receber esse carinho de você mesma


- você me parece estar contendo,

afinal você subiu até o décimo quarto andar

no dia que acidentalmente apertou o térreo

("acidentalmente")


- vocês duas tiveram uma conversa muito íntima,

e apesar de dizer que está tudo desmoronando

a primeira coisa que você trouxe pra sessão foi essa conversa


- você quer reconstruir um Deus bom



esse tal broto bondoso (amoroso)

feito wasabi

feito pimenta

feito jiló

feito mostarda também

e até queijo de cabra


brota assim

aversivo

picante

amargo

esquisito

forte de um jeito ruim


feito sushi, no primeiro dia:

pelo que recomendavam, o sabor devia ser algo como

o bolo molhadinho de recheio de nozes, chantilly docinho, igual ao do meu casamento

na verdade, igual de vários dos meus aniversários de criança


palitinhos, chamados assim, tristemente, os hashis

sambam, também tristemente, sobre a fina e crua superfície laranja

essa então chega molenga derretendo na boca

surpreendendo com um surpreendente sabor de

eca

sai

a peça desfeita na saliva exige uma grande capacidade de persistência


feito isso, é esse broto que brota

feito o zaatar que esverdeou essa semana

e que parece que vingou e quer vingar


brota aversivo, picante, amargo, esquisito, forte de um jeito ruim 

brota com dor, parecendo um novo trauma adiante

ou brota da dor, depurando, com seus espinhos, a película protetora

da membrana descontente que pede por descontenção 


brota porque há um espaço

brota pedindo por mais espaço

e agora, o que eu faço?


deixo chegar?

- mas o medo é da partida

então deixo partir?

- na verdade, o medo é de que queira permaneçer


o medo afasta,

mal sabendo, a voz-deus-mau-interno-enlouquecedor, 

que a hora que o wasabi chega junto com o sushi na boca

um novo desconhecido é reencontrado

e de repente

wasabi tem gosto de bolo molhadinho de nozes do meu aniversário




domingo, 30 de janeiro de 2022

talvez

Talvez fosse eu a sereia da borra do café

à margem da falésia

com os cabelos arrepiados indicando uma queda

mas a cauda, sentada, hesita


Sensação de que algo não foi dito

será se ainda imaturo para se revelar?

O que seria?

Talvez uma tristeza tenha se instalado gota à gota

trazida pela chuva dominical


O céu perdeu suas cores há alguns dias

mas quando se está acompanhado

de si ou de alguém que o valha

resistem tons e sobretons celestiais


Talvez também seja a simples roda da vida

girando, bela

e afiada

feito makita 

que grita

hipnotizando para o abismal suspense de como seria tocá-la


Mesmo não escorrendo o sangue fantasiado

os dedos coagulam-no em suas pontas

traumatizados pela pura idéia do trauma


Sei que isso tudo cabe a mim

e talvez

seja por isso que quem quer que seja

me colocou sentada nessa queda

sendo do mar, estando na terra, suspensa no ar


e aquele fogo

incendeia



desce

dos sobes e desces

da impermanência da vida

hoje sou convidada a descer


dos verdes, amarelos 

e, posso jurar, azuis

pedaços da Terra em seus olhos

hoje vi a fumaça de alguma floresta incendiada


afinal, quem provocou o incêndio?

provoca-lo-amos juntos

ou teríamos simplesmente nos atirado às chamas 

já anteriormente acesas?


por sei lá quem

mas deve ser desse mesmo "quem"

o convite a descer

encerra mais cedo o cafuné maternal

tira minha coberta

abre as cortinas para uma luz ainda Jabez


o quem me diz para somente estar

ontem Clarice disse para marchar

fico no acampamento dos perplexos

perplexa por saber que a descida chegaria

mas perplexa por sempre acreditar que pode tardar

ou talvez, nunca nem chegar



sábado, 8 de janeiro de 2022

amor verde e vivo

estar sozinho e muito bem acompanhado

com o silêncio do ar puro

da água tilintante

dos cães das lágrimas


o pensamento sossega

distraído com a imensa beleza do céu pintado

deixa espaço para o sentimento

para a sensação e para a intuição


o corpo destenciona

lavado pela delicada força do rio

massageado pela areia ainda molhada da chuva forte

volta a ser corpo


a alma desperta

pede licença para entrar no rio, pede licença para adentrar a floresta

recebe benção dos encantados

derrete-se de um amor calmo

um amor brisa

um amor sol pós tempestade

um amor verde, bem verde, bem vivo


sou bicho

sou sozinha na cidade superpopulosa

sou multidão em ti, Amazônia





sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

resta floresta

cada dia de um jeito novo

é tanta chuva despencando

o rio engorda, as árvores encurtam


os bichos ficam famintos de nos arrancar pedaços

para voltarmos em busca destes

nossa alma também é capturada

ressoa com o balanço das árvores e o canto das aves


no grandioso Céu, Deus pinta um novo quadro cintilante por dia

o horizonte aponta para nosso dentro

o contrário do horizonte é aqui

.

todo dia de um jeito meio igual

é tanto carro poluindo

o ar escurece, as árvores sufocam


nos tornamos bichos famintos de recuperar a inteireza

de relembrar sermos também natureza

nossa alma adormece narcótica

padece com a rigidez dos prédios e do grito engaiolado


no recortado Céu, o homem atrapalha a arte divina

o horizonte é mera ilusão 

o dentro aponta para fora