sexta-feira, 12 de março de 2021

será que sou sereia

 

Me ocorreu algo louco agora 

Se será que sou sereia 


Quando pequena eu queria muito ser sereia, ou ser fada

Mas queria mais ser sereia 

Cantar debaixo da água 

Navegar com a minha cauda


Será que além do feitiço da noite, 

peguei o feitiço do peixe


Sempre tão pronta a cantar, com meus olhos, a algum marujo que caísse no mar por mim? 

Safa dos anzóis

Meio humana meio peixe

Escapo deles e aliás os manipulo


Quase um poema 

Mas me ocorreu nesse exato instante

domingo, 7 de março de 2021

 

A                    terra

A                    mar

Respir             ar

Bri                  luz

sexta-feira, 5 de março de 2021

A raiva, a culpa e o castigo

 

Sentindo raiva do que me fizeram

Culpa por ter deixado que o fizessem

Sentindo raiva por ter culpa

e culpa por ter raiva


Esse meu eu raivoso decide então aplicar um castigo

a esse meu eu culpado

O raivoso teima que castigar é necessário

O culpado confia que é necessário ser castigado


E assim foi montado o júri interno

em que nenhum convidado da defesa foi convocado

sequer há defesa, visto que a sentença já veio posta


A raiva aplica o castigo ao culpado

Todos saem neuróticamente felizes 


quinta-feira, 4 de março de 2021

uma carta

 
Hoje tomo fôlego, sem tanto esforço quanto tentei tomar nos últimos dias.
Acabo de ouvir de um professor que nós digerimos questões psíquicas de forma parecida ao nosso trato gastrointestinal.
Então te digo que desde dezembro eu fui exposta a muita coisa, pouco a pouco digerida. 
Aquilo que me nutre fica, o que não nutre, sai.

Teve hora que tomei veneno, mas o veneno me nutriu
Teve hora que tomei um doce suco de laranja, mas que tão logo amargou a boca.
E hoje tentarei enfim te mostrar as partes que já enxergo.

Sobretudo, algo foi visto. Pude ver, desde então, em mim e nos meus padrões, processos dos quais gostaria de eventualmente me despedir - mas primeiro preciso aprender a lidar com. 

Tamanho foi olhar atencioso que venho podendo repousar sobre mim, que parece que desviei o olhar que era até então para fora, de volta para dentro.
Assim, venho vivendo meu mundo interno com certa intensidade nas últimas semanas.

Fico brava comigo mesma porque não estou mais fazendo meu zazen diário, sei que isso é parte da resistência, parte da anestesia que procuro (mesmo não querendo procurar).

Parte dessa resistência vem porque me percebo tendo tanto a melhorar que assusta. Que freia, que aperta pra voltar a fita. 

O que não deixei de lado foi meu anel, minha aliança que comprei para simbolizar um acordo comigo mesma. Na aliança está escrito Aterra 45°.

E é nessa terra que agora me encontro.
Convites como o céu/seu que pedem que meu olhar se eleve, encontre o outro, por enquanto, não está saindo. Logo logo deve sair, mas sei que ainda está como que um imã sendo puxado ao solo.

Quero dizer com tudo isso que nas últimas semanas tenho dado menos conta de demandas externas. Estou mais distante, mais pra dentro. Meu coração foi recentemente abalado por algumas situações. Em outros momentos esse mesmo coração bate forte em situações aleatórias, como se eu fosse invadida pela alegria de alguém que pensa em mim. 

Tem um banquete me sendo oferecido pela vida. Mas ainda estou dando um gole e uma beliscada por vez.

Um dos pratos, assim que dei uma garfada, me pareceu tudo normal. Logo, passei a digerir algo dela, difícil de digerir. Ainda não sabia dar nome, talvez eu ainda não saiba. Mas combina certa angústia com outros sentimentos também.

Me vi num lugar familiar, me vi vilã, me vi vítima, me vi fria, me vi raivosa. Minha parte mais externa vibrou contente com quando podemos nos desamarrar de amarras por vezes colocadas, noutras por nós escolhidas.

O também familiar sentimento de culpa trouxe uma paralização. Me vi vulnerável se qualquer passo fosse dado. Como que eu "não queria ver com meus próprio olhos" os fantasmas que estavam então se formando.

Não queria ver o fantasma de um encontro ser indigesto. 
Não queria ver algo que até então não vi. 
Não queria ver o óbvio e nem a ilusão.
Fiquei constipada, e ainda me sinto assim em alguma medida.

segunda-feira, 1 de março de 2021

mas

violento 

o amor te empurra ladeira acima 

Mas

perde-se assim o platô 

perde-se o nível do mar


erva-daninha

o amor não pede licença 

Mas

morre a linda e inodora rosa 

morre o ideal de jardim e o jardim ideal


Mas

Se mesmo assim tentar dele escapar

será no momento em que desistir 

que aprendes a confiar


no momento em que se solta da mão a bigorna

alada de amor, se permite à alma flutuar


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

arvoresço

 De tempos em tempos troco minhas folhas

ora cresço

ora floresço

enraizo e me achego

cada vez mais aqui

cada vez mais em mim

cada vez mais matriz


De tempos em tempos

me aproximo do céu

não me meço

não me cobro

consinto a história carregada na semente

e nutrida pelo solo


Subo até onde puder respirar

me ocorre um fruto

Semeio

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

nunca nem vim

estou brava 

mas te agradeço 

por me ensinar algo que ainda hoje não sei o que é

mas sei que aprenderei 


não só graças a você 

graças também a mim 

e graças às leis de Deus que invariavelmente nos empurram à evolução 


obrigada por me mostrar que mesmo na minha perfeição, jamais serei perfeita 

que mesmo me esforçando em não me revelar prontamente em sombras e luz

mesmo assim

não significa nada, nada está posto

ou garantido

ou previsto


Não te controlo

Não me controlas 

Não te tenho 

Não me tens 


Sou quem sou

Mas te mostrei só um pedaço 

Pensando que te agradarias 

Que ficarias 

Que pedirias pra ver o que ainda não mostrei 


Mas você se foi 

Porque afinal 

Eu nunca nem vim

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

não


não nos apaixonamos

não nos amamos

não namoramos


beijamos 

combinamos

falamos

rimos


sobretudo

foi no respeito

que se ergueu o pilar da leve relação que existia, mas


se é suspenso o respeito 

está suspeito todo o resto

não pt. II

não estava apaixonada 

não alimentei fé

tinha fé em você e em mim, individualmente, mas


segui imersa em meu genuíno estado de Amor

torcendo por um amor iniciado-não-vivido

(mesmo não sendo meu, é Amor do mundo 

então é meu também

ou é em mim) 


o vidro se quebrou

não houve ventania alguma

não fossem as lembranças da nossa conversa. 


tropeçaram suas atitudes nas palavras

a dança desencontrou o corpo da música que tocava lenta

de repente era um vazio nomeando o novo espaço que começara preenchido. 



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

perdi o apetite

me servi do teu banquete sem fome, sem gula. 

claro, me apeteciam algumas frutas suculentas, 

alguns pães frescos, 

caprichos que eu nem sabia o nome. 


fui me servindo à medida que te servias, 

sem tantas assincronias.


Não quis te devorar 

Não quis ser devorada 


a decepção cala o prazer no instante em que me sirvo, sedenta,

de um caju reluzente, colorido, hígido

precipita em minha boca seu sabor, 

cria-se em minha mente não uma eternidade de cajus, 

somente esse caju, 

essa rodela que pretendi destacar. 


mas a faca não serra 

é de plástico o fruto


quem faz isso? 

engana com plástico em meio a sabores verdadeiros? 


pois cruzei paralelos os talheres sobre o prato 

perdi o apetite

domingo, 20 de dezembro de 2020

casquinha

 Me restam pequenas casquinhas


Respirar

Esperar


Escondidas na raíz da coxa 

marcas suas

cicatrizes minhas 


Fosse criança, arrancaria a ver ressangrar 

Fosse curiosa, comeria a descobrir o sabor do próprio sangue 


Se passo a unha onde antes arranharam as suas

A casquinha teima em ceder

E quando cede, 

embaixo há uma pele muito clara, muito virgem do sol quente que me empurra da cama 

tão cedo


O que será dessa mancha ainda despigmentada 

Representação do espaço que nos foi colocado 

Estaria ela preparada para a claridade 


Posso ouvir a passagem do tempo só de olhá-la

Me agarro às sobras de sangue seco e endurecido 

Contemplo, celebro, lamento, relembro 

Respiro

Espero

Ocupo


Desrespiro 

Desespero 

Desocupo


- Tira isso da boca, menina

Não se pode comer o próprio sangue 

Mesmo que seco 

Ferida é pra deixar estar

terça-feira, 20 de outubro de 2020

amorana (ou amorna)

 

Deus bem conhece

o pedido da pequena 

por onde vagueiam os pensamentos, religiosamente, ao encostar no travesseiro 


Deus bem viu muitos sonhos acordada

costurou, também, em colagem, muitos outros adormecida 


E esse sonho vale de que? 

Vale ainda? 


Deus pouco mostra do vir a ser 

Misterioso 

Observador  

Centelha que arde no coração no momento do transcender


o corpo físico não mente 

as emoções não mentem 

a angústia é o único afeto que não engana 


E o amor

Será que engana?


Adormece

Amortiça

Amortece

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

choro no leito onde a libido flui em excesso

 rio nas efluências equilibradas dos os rios da intenção

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O Sol e as nuvens

 (de um lindo sonho, rico em detalhes, em cheiros, em cores e em sensações)

Nele vou viajar para a praia com ela

Eu e ela estamos muito próximas, em um sobe desce, nos fazendo companhia.

Chegamos à casa beira mar, um Sol lindo lá fora, um céu de brigadeiro e tudo o que queremos é descer para o mar.


Mas a gente enrola, enrola procurando qual chinelo entre quatro pares de chinelo levados,

a gente enrola porque pessoas desceram correndo a escada e fomos ver quem era,

a gente enrola porque decide passar no mercado e comprar comida para o jantar;

e cada vez que a gente enrola, o Sol vai desaparecendo e aparece uma nuvem, uma nuvem mais escura de chuva, e vento. O mar em ressaca, víamos distante o encontro da água com a areia.


A sensação é a de que a gente só tem aquele dia e que não estamos sendo capazes de aproveitá-lo verdadeiramente.

O Sol vai escapando debaixo do nosso nariz, o Sol! 

Em algum momento olho novamente e o mar está cheio, tão cheio que suas ondas parecem quilométricas, as gotas das suas quebradas respingavam em nós, de dentro da casa. O mar vinha até mim.

Mas eu? Ainda não ao mar.


- Pega o chinelo, pega a chave, fecha a casa, vamos, vamos para o mar, desce.

Ela quer ir ao mercado, claro, o que você quiser eu farei. Vamos, no meio do caminho passamos no mercado para comprar ingredientes do jantar.

E o mar e o Sol nos esperando lá fora.


A gente senta para almoçar, pedimos cervejas, pedimos caipirinhas, e o mar, deixa ele esperar.

Enfim, vamos ao mar, mas para isso precisamos passar por dentro de uma loja enorme - de chinelos havaianas - onde havia duas saídas para a areia.

O Sol está quase lá

E quando chego perto do Sol, muitas pessoas indo e ainda mais pessoas voltando, 


Eu escorrego, rasgo meu braço esquerdo e meu peito em algo pontiagudo, descendo de mim uma pele pendente que parecia uma asa sangrenta.

Essa ferida não dói tanto quanto ela é feia 

Ela não dói tanto quanto era decepcionante porque, mais uma vez, o Sol fica para depois

E as pessoas dizem: vamos, temos que cuidar disso

E eu penso: mas como vou tomar Sol com essa asa enfaixada? Teimosa, quero a opinião de algum cirurgião, na esperança que me dissessem que não era necessária sutura e que a cicatriz se daria por segunda intenção.


E mais uma vez, o Sol cada vez mais longe, o céu cada vez mais chuvoso então

Decido olhar para a ferida e só para ela, já desistindo do Sol.


Nessa hora chove, mas chovem notícias

Más notícias

Alguém morreu dia três de setembro e foi encontrado dias depois

Outro alguém desapareceu


- O que era vontade de ver Sol, tudo o que vimos foi sangue.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

concentra-se

 a passagem terrena é prenúncio de novos tempos

sóis e girassóis

e nós

e também as nuvens sobrecarregadas de si mesmas 

choverão

as flores se inundarão

deixando para trás sua abundância primaveril

abrindo espaço para o verão