terça-feira, 21 de setembro de 2010

preciso trocar de música

preciso largar disso de comer toda hora,
não é fome.
preciso largar disso de varar as noites,
mais vago que estudo.
preciso largar disso de te ligar, já apaguei seu número.
preciso mesmo é esquecer o número,
e você.
preciso decorar um número novo. um número de dança!
preciso voltar a dançar sozinha no quarto.
preciso usar uma tiara azul, aquela de quando eu me descobri mocinha.

preciso arranjar uma calota pro meu carro e aprender a dirigir na chuva.
e parar de perder as coisas, brincos, alargadores, dinheiro, pensamento...
e ir numa livraria até enjoar de ver livros e ir na parte de revistas e dar um suspiro ao ver uma revista de como ficar magra, daí vou lembrar que preciso parar de comer toda hora e preciso de outros precisos.
preciso parar de colocar cinco despertadores e acordar logo com um só e dizer ao meu irmão que eu não sou o despertador dele mas que a cada mensagem de "caro despertador, me acorde amanhã blablabla" eu leio como uma mensagem de te-amos.
preciso dar mais comida pro charcas, essa que eu não vou comer, vou repassar, só não sei se ele come chocolate.
preciso
voltar a pintar minhas unhas de vermelho
ir pra paulista passar frio e ver filmes sozinha
e amores
ir ver minha prima
fazer algum mimo pro meu pai

lavar a louça
arrumar meu material da morfo
comprar uma agenda
e usar a agenda.
estudar.
encontrar as coisas que perdi.
perder coisas que não quero.
deixar pessoas que não me querem
abraçar quem eu quiser
dizer um segredo que está entalado em mim
guardar o segredo que está ainda mais entalado.
contar meus segredos baixinho para mim mesma na almofada e me espantar achar bonito e feio e rir e chorar e dizer pra mim não faça de novo, faça inovado, esconda, publique, reze.
preciso rezar e perguntar pra Deus por quê Ele nos marioneta tão ironicamente.
preciso encontrar o fio da marionete que sou e escalá-lo e olhar lá de cima como somos todos um bando de sujeitos sujeitos à uma ironia que Deus só faz por graça.
vou cortar um dos meus fios, só o que segura minha cabeça, vou cortar o seu fio também, vários dos seus fios.
quero minha cabeça solta pra eu poder rir de ver você cambaleando tentando andar sem fios irônicos apenas na sua liberdade e na sua verdade.
vou rir mas no fim vou te segurar antes de você cair embriagado de livre.
e vou pedir um abraço porque eu só posso mexer minha cabeça e você vai me abraçar e eu vou chorar e dizer que te amarro de volta e que sumo da sua vida, novamente irônica.
vou dizer que sumo e ironicamente
estupidamente
não vou conseguir.
porque amarrei um laço que segurava minha cabeça bem aos seus pés estupidamente e
isso só me restou em chutes que me tontearam
a ponto de dizer
eu vou conseguir.
vou cortar.
e vou me amarrar em outro lugar ou em outro alguém, com o laço bem frouxo como nós dois queríamos.
vou ficar solta como sempre quisemos, mas falhamos em algum momento e erramos em algum lugar.

preciso desligar meu rádio.
liguei meu rádio e ele disse "I lost myself" e eu respondi eu também.


talvez trocar a música baste.


quinta-feira, 22 de julho de 2010

comandador

como um andador
te desvio
como num corredor
te escondo
dentro de um lugar sem nome
só quero esquecer seu nome
não quero saber de você
como anda a dor
que a resposta virá mentida
metida no teu sorriso vulgar
no teu só riso que finge dor.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

nubívaga


sequer tento. não sei escrever nada que se diga um poema. não sei mesmo, e não me frusto.


só que dia desses
descobri...
que tomo atitudes sem o menor sentido só para
ter a graça de ver pessoas ao meu redor tentanto encontrar minhas razões de tomá-las.
vê-las realmente procurando, realmente se importando
e realmente se empenhando.
sendo que no fundo,
no fundo, eu não tinha motivação ou lógica alguma.
pura graça. puro charme.
puro poema.

...ser poeta em viver.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

uma rosa mal espetada traz o choro


o choro ininterrupto. o choro chorado e doído e pra sempre, e as lágrimas que fazem as luzes do semáforo brilharem de um jeito estrelar e bonito e doído. as estrelas de luz mudam na inconstância do choro, do choro que muda mas que não pára. e que não se sabe. nem foi bem uma rosa, foi metáfora.

rosa é metáfora pra insatisfação. de frequentar ambientes, frequentar pessoas, frequentar situações, frequentar cheiros que não combinam. e que espetam. e que fazem você sentir que não fala a mesma língua que o resto. não busca a mesma coisa que o resto, não gosta da mesma coisa que o resto. que você não cheira que nem o resto. nem fede que nem o resto. não: você fala numa língua muda, cheira um cheiro estranho e fede um cheiro bom. você não combina. não se sente mal por isso. apenas sabe.

rosa é metáfora pra comodidade. você sente aquilo tudo e sabe que dói. sabe que poderia ser diferente. sabe como mudar. sabe os mais longos e mais curtos caminhos de mudar e melhorar. mas, mais que tudo, sabe que não quer nada disso. não quer fazer o que você faria em momentos sem rosas mal espetadas. não quer mudar a situação. isso te distancia ainda mais, e isso espeta ainda mais. mas, você já se acostumou com a dor, que já nem está mais, assim, tão doída.

rosa é metáfora pra afogamento. afogar-se das insatisfações e das comodidades só fazem você criar um mar poluído e negro e abrir a boca pra que a água te encha os pulmões. não se identificar com merda nenhuma do mundo e não querer que isso mude só faz que você não se importe mais-ainda e que não queira mudar nada mais-ainda. num afogamento mais-ainda que se retroalimenta, se eterniza. e te espeta.

espetar é metáfora do não saber. não saber de quem você gosta. nem saber se gosta da pessoa. nem saber quem é ela. ou se ela é como você quer. ou se, mesmo não sendo, se o que ela tem é o suficiente pra ser gostada. ou se você gosta mesmo é daquela que fede e cheira que nem você. ou se gostar de alguém como você te faria menos somado. você não sabe o que sente. não sabe o que é sentir. não sabe medir. não sabe expressar. e pior, não sabe conquistar sejaláoque-em-queintensidadefor, de volta. você não sabe gostar e nem ser gostado. mas, mais que isso, não sabe se quer e se gosta e tudo isso numa retroalimentação eternizada e espetada. sendo que você sabe, que aquela outra mais igual você, espetaria menos. mas, mais que isso: você gosta de ser espetado. é um sangue sutil que se vê e que se comemora. você sente um prazer maldito em sentir dor. você é ridículo.

ser espetado é receber um telefonema. de quem não sabia que você tem chorado lágrimas de semáforos estrelados. de alguém que Algo o fez sentir que ele precisava falar com você. esse seu irmão te liga e você fica certo de que foi sua mãe, preocupada, quem o mandou te ligar. mas ele ligou despretensiosamente e dá até dó de ele ouvir minha voz de choro. mas eu chorei de novo dizendo "não tem nada não" e me botei a limpar rápido meu rosto que se derretia, como se ele pudesse me ver. dizia a ele das rosas da minha vida, das rosas na faculdade, das rosas nas amizades, das rosas dos livros e dos filmes, das rosas da avenida paulista, das rosas dos corações. e dizia dos espinhos das rosas, das rosas que me espetaram a euforia, espetaram a amizade, espetaram a minha busca pelo evoluir, espetaram meu coração. espetaram a rosa que eu era.

e enfim eu senti um dos espinhos sendo tirado de dentro de algum lugar antes espetado. e meu sangue que havia pingado voltou a circular duma maneira persistente dizendo para que eu não desistisse e escutasse bem o que o outro lado da linha tinha a dizer. e eu descobri. descobri algo lindo e florido e orquídeo.
descobri que um desequilíbrio permanente pode se mascarar de equilíbrio. porque está se afogando em sí e quase dado como morto, e morte é, de certa maneira, equilibrada.
e descobri que para se encontrar, novamente, o equilíbrio, é preciso desequilibrar esse desequilíbrio. e esse ato de desequilibrar é que espeta e sangra.
e descobri que "eu estou mudando" nas palavras dele, e isso me soou bonito e doído e maduro e infantil ao mesmo tempo que eu chorei de orgulho de mim mesma. ele disse que eu estou chorando porque estou aprendendo que a vida não é feita de abraçar emoções intensas sempre. e que eu estou aprendendo isso, e isso me enfia um espinho tão grande na minha intensidade que sempre abracei que meu corpo emocionado e triste se põe a chorar, se despedindo de quem eu era.

terça-feira, 22 de junho de 2010

cantam ao contrário

Sabe quem?

Quem sabe o que é perder e ter alguém?
Dor a sente que dorei
Quem sabe o que é partir quem se quer ver?
E não ir pra onde ter

Faz tanta falta te esperar, teu amor
Não sei ter sem te viver
Não dá assim pra ser mais

Quem sabe o que é querer sem ter pra si?
Não quer mim outro em ver
Não é do que eu deveria falar
Pra ser feliz mais alguém


-H. Los, "Quem sabe"

domingo, 20 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010



Que paixão e medo se parecem.
Ciúmes e paixão se parecem. Ansiedade e paixão se parecem.
Insônia e paixão. Dor e paixão. Euforia e paixão.
Nirvana e paixão.


Todos fazem meu coração gingar sempre no mesmo batuque. Meu rosto enrubrescer sempre no mesmo tom.
Meu olhar desviar sempre pro mesmo lugar nenhum, até se fechar
e me permitir sentir batucando,
enrubrescendo,
desenxergando,
nirvanando até que tremo
tremo em febre; tremo em medo; tremo por me mexer
e entorpeço
Atinjo o topo, me sinto o topo, me sinto apaixonada. A própria paixão.

Abro os olhos. Olho pro lado oposto.
Sinto meu rosto azulescendo.
Desbatucando meu coração. Torna a batida tribal. Crescente, negra.
Bate, abre olhos; bate, desbatuca; bate,cai; bate, cai; bate,cai...bate,bate, parece que não, bate.
Adormeço.

Atinjo o fundo, me sinto o fundo, me sinto apaixonada. A própria.



amanheço.
a Paixão (mesmo) continua dormindo. Não sei como acordá-la pois tão logo sinto medo...e o medo me apaixona de novo e eu me entrego de alma e toda ela


para mais tarde me arrepender.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

do suicídio que

que é tão ao mesmo tempo
o máximo da coragem
quanto o máximo da covardia
de egoísmo
e de altruísmo

que é tão máximo
que é tão tanto
tanto poder
tão divino

que provoca, que ameaça, que ri, que mente, que cria, que transborda, que aponta com o dedo,que finge silêncio,
que silencia fingimentos.

que Deus, ameaçado, determinou
que fosse pecado.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

meu medo é mudo

-E o seu? Qual é seu medo?
-Tenho um pesadelo recorrente. Sonho que fico muda. Desde pequena.


Este é um texto atípico. Este é um querido-diário. Este é um são duas da manhã e eu quero gritar, mas são duas da manhã.
Que fossem duas da tarde, eu já não grito mais.
E é esse meu desespero, meu pesadelo de infância.

Meu pesadelo de incomunicação só não é o de ser surda, cega, gélida por que o único sentido que eu posso conhecer a mim mesma é pela minha fala. Eu consigo conhecer o mundo só com olhos, só com ouvidos, só com o tato, só com o cheiro.
Mas sem um espelho, não me adiantam os olhos. Meu cheiro eu nem sinto, tatear a mim mesma é tão metasinestésico que é em vão. Mas quando eu falo, eu falo e não apreendo nada do mundo. Eu não vejo se o que tem na minha frente é um prédio, não sinto se ele cheira a construção ou se sua parede é áspera.
Quando eu falo não me importa o mundo
Quando eu falo é egoísmo, é pra eu me apresentar, a mim mesma.

Me tirassem todos os sentidos, minha fala não. Minha mudez é
atrofia da alma que se diz estar em mim.

Esse ano eu tenho odiado meu guarda-roupa. Ano passado, mesmo com supraquilos extras, eu me virava e me vestia. Esse ano eu não me identifico com o que era meu. Tem algos errados acontecendo comigo, sei disso. São algos sérios, bons ou ruins eu não sei, mas são muito abaláveis.

A ponto de eu chorar por absolutamente tudo. Já tentei acompanhar meu ciclo hormonal pra ver se não é por isso que eu choro, nos cinco últimos dias do ciclo. Não, não.
Choro quando vejo a melhor cena que sempre amei, a de dois irmãos de mãos dadas. Chorei quando o Luciano Hulk (sim) entregou uma casa reformada pra uma família que adotou um moleque. Chorei cara, chorei esse ano. Chorei pela casa e pelo meu guarda-roupa, por motivos completamente opostos e idiotas.
Que merda ta havendo comigo?

Tem gente querendo tapar minha boca. Lá pros meus nove anos, não sei, quando passava Família Smith na Tv Cultura, eu sonhei que meu pai me deu um tapa na boca e minha boca sumiu.
O mundo tem dado tapas na minha boca toda hora, e eu cheguei ao ponto de...
Eu mesma estou dando tapas. Eu.

Estou enfrentando aquilo que sempre abominei: comodismo, preguiça. Não tenho achado, ou agarrado, forças para lutar contra minha mudez.
-Hein filha, você acha que te falta algo?
-

Eu estou aprendendo o maior pecado que minha alma diz, estou aprendendo o silêncio.
Fui acusada de histeria. De fato, EU COMEÇO A FALAR DESCONTROLADAMENTE NUMA VERBORRAGIA INFINDA PRA EU NÃO MORRER ENGASGADA COM MINHA NECESSIDADE DE FALAR.

Demorei pra começar a falar quando bebê, mas eu compensei quando cresci. Não é luxo falar, é necessidade.

E cada vez que você me fala e me manda ficar quieta, minha boca encrava tudo o que pensei em dizer. E um dia esse encravado inflama, forma pus e o pus explode e eu GRITO perco os sentidos, todos eles viram o sentido da fala.
Falar é minha sanidade e minha insanidade.

Mas eu só tenho ficado insana, e de insana, estou ficando muda!!muda, meu Deus!
Estou há tempos sem falar comigo mesma antes de dormir, sem fantasiar de sair voar com o menino dos meus sonhos, sem escrever uma loucura qualquer, sem escrever o que meu dedos sempre mandavam. Até meu dedos estão num período de entresafra, não tenho achado o princípio ativo e o tesão para escrever.

Basta que me abalem, num sermão de família ou numa tarde chorando na tevê para que meus dedos se apertem nesse teclado sem que eu perceba pra me dizerem que o dia que eles se sentirem abandonados,
eles é que vão apertar minha boca com muita raiva que eu me cale de vez.

Não sei quão perigoso isso pode ou deve soar, mas eu estou me mudificando.
e quero gritar por socorro, ou desistir.

domingo, 12 de abril de 2009

As três palavras: eu te desamo

Pronto, simples.
Todos deveriam de ter coragem de admitir.

Te desamo, porque cansei de tentar amar. O certo seria ser tentado a amar, não é?

Cansei de galicismos, de descartinhas de amor, de bombons de dessonhos de valsa.
Meu amor por você não é aceito no Mundo dos Amores, sei porque estive conversando com um real amante, com coroa e tudo.

Metáfora e síntese do amor é aquele abraço da garota e seu namorado. Aquele pulo, a maneira como ele a carrega, a maneira como ela dobra os pés, para que ele possa ergue-la
Ela de pernas dobradas, ele com o antebraço exposto e paterno. Ela com o rosto milimetricamente projetado para encaixar e mergulhar no ombro dele. Os dois sentem o perfume do outro, perfume que inclui desodorante e cheiro nato de cabeça. Para os amantes, o que fede lhes é perfume; o que lhes é perfume é quase imperceptível.
(Amor é o sentimento que...exatamente esse: dois pontos, ponto final, de exclamação de interrogação, reticencias. E, mais que tudo, é ponto e vírgula.)


Ele é protetor, ela é leve. Ele se equilibra em dois pés fincados, ela é meiga. Ele a ama, ela se equilibra sem pé algum no chão. Ela o ama, ele sabe; ela sabe.


Saber que ama, é quando se tenta expressar com palavras o que se sente, mas se acaba em um beco inexpressível.
O músico toca o tom que os amantes reconhecem, e na hora pensam “isso, isso é amor”.
Isso o que? O começo da música "Walk with you" do Dispatch? Duvido.
Um pintor plastifica o amor em uma tela, e os amantes pensam de novo...Isso! O que? Um borrão vermelho com um preto, um traço em tinta a óleo? Duvido.

Um perfume cheira a amor, um filme, uma pipoca, um canivete, uma rua, um sabor, um homem e uma mulher.

São todos pedacinhos do mundo que trabalham em equipe para nos gritar o que é amor, mas alguém nos fez surdos para ouví-los.

Também,perderia a graça. Graça de amar, ou de ansiar amar, é supor os sentimentos, é buscar uma definição, um sabor, um homem uma mulher.
Pois bem, se somos surdos, somos mudos.

Por isso que das artes, tentar dizer ou escrever o que é amor é a mais difícil, mais impossível.

O máximo que conseguimos fazer, bem, é juntar as quatro benditas letras,e dar um suspiro de alegria e...ou...e...de raiva logo em seguida.




Palavra de quem nunca amou,nem foi amada. Ou já, e nunca soube de nenhum dos dois.

Um segredo


Vou contar
de um a dez
e contar
um segredo:
tem pessoas que deveriam era se matar,

dentre elas: eu!


De Jáh a Yemanjá
façam-me dormir e esquecer os Platelmintos que comandaram a Revolução Russa dos planaltos sedimentares de um dos ecossistemas que faz jus ao bioma referido,
Nessa época em que tremas são ignorados e chamados de crase, onde qualquer um pode ser ex-escravo, onde tem quinze apostilas e cima da minha mesa com o nome escondido, mas eu sei cada uma quem é.
Porque de noite elas saem da mesa e me puxam dizendo "Faltou eu! Você não me fez"; e eu só lhes respondo "Não é assim que se diz,é 'Faltou a mim' ", mas eu nem sei se isso é deveras correto.

Essas cobranças, piores que escambo de espelhinho, piores que desenhar o Cáucaso mais longe do que ele é.
.
Mas é assim a vida: no mar, não tem peixinhos...Tem poríferos, celenterados, plânctons, e pneus.


Esse era outro segredo que eu queria contar.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Miguilim quer contar História

Capítulo Primeiro - a melhor

Um jantar, aquele do tipo que mistura familiares fazendo jus à correlação sanguínea a outros que aparecem duas vezes em nossa frente: quando nascemos e quando ganham uma máquina fotográfica. Assim que a desembrulham do pacote, querem, tão logo, ter retratos espalhados pelo apartamento e, nada mais óbvio, que querem aparecer fotografados como alguéns caseiros, da família, amados e amadores. Pois bem: amadores; mas isso não vem ao causo.
Causo é que estávamos todos na sala de jantar, como em uma ceia. Eu tinha um incrível copo de vinho em minha frente, esquecido por alguma tia, e minha mãe não reparava que eu bebericava-o sempre que ela se distraia. A mesa de jantar suportava oito pessoas, mas sempre fazíamos sentar dez mais cada nova criança parida por visita. Ao meu lado direito sentava-se meu avô, e ao lado dele, a minha avó, e mais ninguém na mesa conosco. Ele vestia-se com uma calça de veludo marrom, na qual mal se percebia que tinha café derramado; e uma jaqueta jeans azul. Minha avó, engraçado, naquele dia ela não estava com aquele vestido de natureza morta e cheiro de natureza morta - não - ela estava com um conjuntinho de linha azulado, mas seu sapato era o mesmo marrom que combinava com o veludo e o café do vovô:
-Zezinhô, pega lá um copo d'água pra mim, Zézo? Pediu a ele, enquanto, sem perceber que eu os observava, acariciou o joelho de seu esposo. Ela deu um sorrisinho, poxa, tão espontâneo e tão forçado ao mesmo tempo.
-Eu... Titubeei por um instante que eu me encarregaria de servir minha avó. Fingi que não proferira a palavra e segurei a taça de vinho como se estivesse a observá-la há eternidades e profundidades. Por isso! Ela está vestida assim por isso! Ela aproveitou o dia do aniversario do vô Zézo para reconquistá-lo: seu conjuntinho tinha um cítrico aroma de natureza viva que eu não reparara.
-Eu... não devo - dialoguei com o vinho remanescente - Ele deve ir; ela não esta com sede de água. Ela tem vinte anos, e um coração cítrico a ser regado. Receber água é a idosa maneira de ela ouvir "eu te amo", e não sou eu quem deve dizê-lo, agora, o joelho não era meu.



O do meio - cágado

Férias de junho, São Paulo finge ser um país temperado de galicismos: poncho, cachecol, cacharrel, e quaisquer palavras com som de "ch", que pulam do dicionário só no nosso suposto e deselegante inverno. Ninguém da turma, a não ser eu e o H. saímos do rocambole de edredon, plenas 17:00 para conversar. Eu, ele e um celular éramos suficientes pra armamos nosso fim do dia. Ligamos para duas, ou três, que aparecessem na casa dele para "conversarmos", que se fosse sem as aspas, seria também sem a graça.
21:00 duas delas chegaram: uma para cada um 21:25 elas estavam embriagadinhas, e nós dois só alegres; 21:45 elas estavam de alguma maneira que nós dois já não tínhamos condições de relatar.
Minha jaqueta, blusa dela. Minha calça, calça dela. Calcinhas, soutiens, perfumes, laços, fios de cabelo, perfumes, perfumes, perfumes!
8:00 do dia seguinte, só perfumes e vagas lembranças. Lembranças? Dormimos num colchão no chão, na casa de madeira. Ela do meu lado direito, quando eu de bruços. Me virei, devagar, quis vê-la, não sabia como lhe dar aquele beijo de bom dia, o que lhe falar - eu mal a conhecia, eu a entorpeci desse jeito! Eu a conheci? Me segurei para não virar ainda, não podia me sentir culpado; nós dois queríamos, é, nós dois. Mas será que foi real? Minha dor de cabeça agora, poxa, não sei direito. Dane-se, vou virar, preciso vê-la, seus olhos verdes devem estar mais verdes com esse sol nascente.
-Não! Nao é ela! Seá que...eu realmente dormi com essa tartaruga? E a tararuga me olhava, sentada na almofada, seus olhos presos no mesmo ponto em que os olhos dela me olharam na noite anterior. Mas a tartaruga, olhando bem, a tartaruga também tinha uns olhos esverdeados, mas ela nao me parecia...
E aquela estória que ela me contou? Que a mae dela cantava-lhe "Boi da cara preta" em todas as cores para que ela nao sofresse de preconceitisse - e meu único comentario foi que ela perderia a rima - e ela me sorriu. Nao me parece que o bendito cágado me daria aquele sorrisinho de outrora, nao mesmo. Quero que nao seja, nao mesmo.


Último Capítulo - último

-Mãe, esse é o ultimo capítulo do trem? A menininha apontava para a placa de alguma estação do metrô.





Adendo: eu, por mim, me agarrava, colocaria pregos entre meus dedos e estes últimos dias de 2008: não quero as novas regras gramaticais! Dentre minhas paixões, tenho a de preferir "Estória" a "História", mas isso já é estória antiga na gramática. No título daqui, no entanto, "História" é um nome próprio, e ele bem sabe disso.
A que eu mais gosto é a primeira; e eu gosto mais é quando ele me conta as estórias....ai, historinha.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Miguilim quer contar História










Capítulo Primeiro - o melhor


Um jantar daqueles que une familiares que fazem jus à correlação sanguínea, a outros que se manifestam a nós em dois episódios da vida: quando nascemos e quando ganham uma máquina fotográfica. Assim que a desembrulham do pacote, querem, tão logo, ter retratos espalhados pelo apartamento e, nada mais óbvio, querem aparecer fotografados como alguéns caseiros, da família, amados e amadores. Pois bem: amadores, mas isso não vem ao causo.

Causo é que estávamos todos na sala de jantar, como em uma ceia. Observava um sóbrio copo de vinho posto em minha frente, esquecido por alguma tia que se serviu de outro mais cheio. Me divertia em provocar minha mãe, que não reparasse que o vinho reduzia da taça a medida que ela se distraia.

A mesa de jantar comportaria oito pessoas, mas sempre fazíamos sentar dez, adicionando toda nova criança que nascia em progressão geométrica.

Ao meu lado direito sentava-se meu avô, ao lado dele, a minha avó, e mais ninguém na mesa conosco. Ele vestia uma jaqueta azul e uma calça de veludo marrom que camuflava uma sutil mancha de café. Minha avó, excepcionalmente naquele dia, não deve ter aberto o mesmo armário, não vestia vestido de natureza morta e cheiro de natureza morta. Desfilava a passos lentos um conjuntinho de linha azulado, destacando seu sapato de mesmo tom marrom que combinava com o veludo e o café do vovô:

-Zezinhô, pega lá um copo d'água pra mim? Pediu a ele, enquanto, sem perceber que eu os observava, tocou o joelho do vô Zézo. Sorriu pra ele dum modo tão espontâneo e tão forçado ao mesmo tempo, talvez fossem as rugas roubando a delicadeza do sorriso.

-Eu(...). Titubeei, por segundos, que me encarregaria de servir minha avó.

Engoli a palavra disfarçadamente, segurei a taça de vinho como quem analisa distraído e se espanta pelo desconhecido. "Ela se vestiu diferente. Aproveitou esse aniversário do meu avô como pretexto de regar o amor que está com rugas, gaguejando e querendo ficar sentado. Seu conjuntinho tinha um cítrico aroma de natureza viva que eu não havia compreendido até então.

-Eu... não devo- sussurrei no copo para escutar e cheirar minha própria voz em torpor de epifania -Ele deve ir. Ela não esta com sede de água. Ela tem vinte anos, e um coração de limão a ser regado até bem laranja doce.

Receber água é a idosa maneira de ela ouvir "eu te amo", e não sou eu quem deve dizê-lo agora, o joelho não era meu.



O do meio - cágado


Férias de junho, São Paulo finge ser um país temperado de galicismos: poncho, cachecol, cacharrel, e quaisquer palavras com som de "ch", que pulam do dicionário só no nosso suposto e deselegante inverno. Ninguém da turma, a não ser eu e o H. Saímos do rocambole de edredon, plenas 17:00 para conversar. Eu, ele e um celular éramos suficientes pra armamos nosso fim do dia. Ligamos para duas, ou três, que aparecessem na casa dele para "conversarmos", que se fosse sem as aspas, seria também sem a graça.


21:00 duas delas chegaram: uma para cada um 21:25 elas estavam embriagadinhas, e nós dois só alegres; 21:45 elas estavam de alguma maneira que nós dois já não tínhamos condições de relatar.


Minha jaqueta, blusa dela. Minha calça, calça dela. Calcinhas, soutiens, perfumes, laços, fios de cabelo, perfumes... e que perfum es!


8:00 do dia seguinte, só perfumes e vagas lembranças. Lembranças? Dormimos num colchão no chão, na casa de madeira. Ela do meu lado direito, quando eu de bruços. Me virei, devagar, quis vê-la, não sabia como lhe dar aquele beijo de bom dia, o que lhe falar - eu mal a conhecia, eu a entorpeci desse jeito! Eu a conheci? Me segurei para não virar ainda, não podia me sentir culpado; nós dois queríamos, é, nós dois. Mas será que foi real? Minha dor de cabeça agora, não sei direito. Dane-se, vou virar, preciso vê-la, seus olhos verdes devem estar mais verdes com Sol nascente.


-Não! Não é ela!

Um flash da noite anterior, que a mãe dela cantava "Boi da cara preta" em todas as cores para que ela não se contaminasse com preconceito - e meu único comentário foi que ela perderia a rima - e ela me sorriu.

-Mas isso não deve sorrir. Será que...eu realmente dormi com essa tartaruga? E a tartaruga me olhava, sentada na almofada, seus olhos presos no mesmo ponto em que os olhos dela me olharam na noite anterior. Mas a tartaruga, olhando bem, a tartaruga também tinha uns olhos esverdeados, mas(...)


Último Capítulo


-Mãe, esse é o ultimo capítulo do trem? A menininha apontava para a placa de alguma estação do metrô.




ps: por mim, me agarrava, colocaria pregos entre meus dedos e estes últimos dias de 2008: não quero as novas regras gramaticais! Dentre minhas paixões, tenho a de preferir "Estória" a "História", mas isso já é estória antiga na gramática. No título daqui, no entanto, "História" é um nome próprio, e ele bem sabe disso.




A que eu mais gosto é a primeira; e eu gosto mais é quando ele me conta as estórias....ai, historinha.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

"Assim que o AMOR entrou no meio, o meio virou AMOR




O fogo se derreteu, o gelo se incendiou
E a brisa que era um tufão
Depois que o mar derramou,depois que a casa caiu
O vento da paz soprou" LH



Foi antes de descer ao rio Lether,instantaneamente antes. Era hora da escolha do amor-eterno, a minha ja havia terminado e faltava a das mulheres de trás de mim para que fôssemos logo banhar-nos no Esquecimento ao tomarmos a água do rio. Fiquei à espreita,quieta e pensante, assistindo a cerimônia das remanescentes.

Era como um túnel em "u", com as duas saídas abertas e com largura suficiente para caber nossos etéreos corpos de então. A mulher é quem entra primeiro neste túnel,e foi assim que fui na minha vez. Entrei e tampei uma das saídas do túnel. Mal entrei, senti uma correria cavalgar, seguida da entrada de muitas pessoas no Meu túnel pela saída que sobrara, mas eu não os via. Desta maneira eu ficava de costas para uma fileira de homens, todos canditados a serem meu-amor-eterno. Somente eu via, e somente ele, via as costas do último e o pior candidato a me amar em vida real, no fim do túnel. Ele não era feio,não mesmo, mas não me amava.
(2)(3)(4)

O que me encantava era o que minhas costas viam. Meu cangote era atingido por uma serena expiração que me arrepiava. Senti que meu coração acelerava quando o dele estava ofegante, e se acalmava se o dele também o fazia. Eu o amava, sabia que era ele o vencedor, mas não o via.
-Deus!O amor da minha vida está tão perto e tão irreconhecível!Eu o amo, eu o amo!
(1)

Meu corpo o reconhece, exceto minha vista. Não conseguiria apontar na rua quem seria ele, mas se ele passasse por mim pelas calçadas e calçadões da vida,seu cheiro! se seu cheiro...se passar,áh!meu coração morrerá, esperando o toque do amado para reviver.
-
Moral

1.
Não reconheço o Amor da minha vida pela aparência.
2.
Reconheço, sim, o meu não-Amor, meu pior candidato. O malandro que chegou por último no túnel sem empenho algum para me amar, e acabou interrompendo a passagem assim, só por malandragem. Eu o vejo, e ele me atrai, afinal, ele é malandro.
3.
Os homens que estavam na fila, do segundo colocado até o penúltimo foram impedidos de sair pelo meu malandro mal-amado.
4.
Assim, desses canditados que seriam os mais velozes e vencedores de outros túneis de mulheres atrasar-se-ão (!) na corrida. E ela se casará com um outro, que não o Amor Eterno, um Temporário que estava em seu cangote. Estava em seu cangote, mas ela nao se arrepiava: o Eterno mesmo estava em terceiro lugar, atrasado. Dai nascem separações e amores errôneos.
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Moral da moral:
malandro que é malandro
finge que ama só por malandragem. - Nota: Rio Lether, aquele que Platão dizia termos mergulhado nele assim que saímos do mundo das Idéias e nascemos no das Sombras; fazendo-nos meros 'esquecidos' destinados a passar a vida nas reminiscências, RELEMBRANDO (não aprendendo) coisas de la vida. Nota da Nota: em árabe a palavra que traduz ser humano é Inssán (=aquele que esquece).