a brisa gostosa do vento
hoje
dói
sobre a pele
do corpo que se percebe corpo
descorporificado à medida que se dissolve na saudade
de quem eu realmente queria
que me tocasse
como brisa gostosa do vento
à flor da pele
à árvore paraense da pele
a brisa gostosa do vento
hoje
dói
sobre a pele
do corpo que se percebe corpo
descorporificado à medida que se dissolve na saudade
de quem eu realmente queria
que me tocasse
como brisa gostosa do vento
à flor da pele
à árvore paraense da pele
a mancha de cerveja derramada na varanda: não limpo
a garrafa de coca no carro, da praia: não jogo
a mecha de cabelo gentilmente acariciada: não lavo
a fronha do travesseiro: não troco
as mensagens que chegam nos sonhos: não mudam
cheiros de apego
- Me parece que você está muito triste hoje. E o jeito que você conhece de lidar com a tristeza é se machucando ainda mais.
o chinelo, dessa vez, ficou no capacho
e eu, como de costume, deixei a porta aberta
apesar de uma chave por dentro e uma chave esquecida por fora
você já não esqueceu mais nada aqui em casa
nós já não tínhamos um segundo encontro marcado mesmo antes do primeiro
o último beijo já tinha sido beijado,
eu só não sabia ainda
(mas sabia de alguma forma)
pode entrar
pode trancar
não, não pode entrar
não pode partir
não tão cedo
não tão tanto
mas não teve como
a porta destrancada foi aberta
o chinelo já estava ali
a chave de dentro seguiu imóvel
enquanto as lágrimas se moviam em busca do mar
você chegou molhado de água de cima
saímos molhados de água da dentro
Segurar delicadamente o pincel
que repousa sobre o
quadro do rosto e da alma
Pintar-se
Se arter
Sempre que o odiado se manifesta
o odiento se manifesta
E quem se manifesta quando ambos adormecem
ai dentro
de ti?
o que aconteceu foi
que temi te amar
temi que, te amando, te destruiria
afinal, uma hora você estava
na outra, partia
achei que a cada partida me dilacerava
talvez fosse uma vingança, um castigo? e já alia nascia
em mim a noção de pecado
(ou assim mais tarde fui nomear algo já familiarizado)
não quis me sentir digna
não quis nunca mais botar pra dentro
algo que vinha tão sincero
tão humano
tão materno
passei e ainda passo anos
em que, sempre respondendo mal a todo tipo de restrição,
compensava, compulsivamente, arrecadando tudo aquilo que insisti em descartar
e bota pra dentro, bota pra fora
pra dentro de novo, pra fora de novo
até chorar
até sangrar
linda e metaforicamente
a vida vai se manifestando
e agora vejo, percebo, ilumino
(mas, tenha paciência, aos poucos elaboro)
o quanto eu quis ser medonha
por ser medrosa
por ser voraz
por ser insaciável
por ser frágil
por ter inveja
por ter um horripilante temor de sucumbir
me perdõe
por esse amor que rejeitei
persistentemente empurrei da cama
lamento muito, até o asfixiei
fui bruta, precisei ser
sentia que estava me defendendo de algo que eu não suportaria
e hoje me pergunto
será que amor é mesmo um perigo tão grande que eu não possa tocar?
- você não teme que te deixem,
isso você projeta nos outros
porque é você quem se assusta com o perto demais (do broto amoroso)
- e não é do medo de que te vejam os defeitos,
é de que você não possa tolerar a ruína
da sua ideal perfeição (da voz-deus-mau-interno-enlouquecedor, que é sua agora)
[ voz da narradora: quanto mais esforço pra me tornar essa anja, como você diz,
mais acaba que afasta mesmo, isso vem pra somar na estratégia de arruinar tudo
pra me proteger desse broto desconhecido]
- quando exercita esse broto de amor,
você imagina que vão usar isso contra você
mas não vão
- você não quer mais carinho de alguém,
você quer receber esse carinho de você mesma
- você me parece estar contendo,
afinal você subiu até o décimo quarto andar
no dia que acidentalmente apertou o térreo
("acidentalmente")
- vocês duas tiveram uma conversa muito íntima,
e apesar de dizer que está tudo desmoronando
a primeira coisa que você trouxe pra sessão foi essa conversa
- você quer reconstruir um Deus bom
feito wasabi
feito pimenta
feito jiló
feito mostarda também
e até queijo de cabra
brota assim
aversivo
picante
amargo
esquisito
forte de um jeito ruim
feito sushi, no primeiro dia:
pelo que recomendavam, o sabor devia ser algo como
o bolo molhadinho de recheio de nozes, chantilly docinho, igual ao do meu casamento
na verdade, igual de vários dos meus aniversários de criança
palitinhos, chamados assim, tristemente, os hashis
sambam, também tristemente, sobre a fina e crua superfície laranja
essa então chega molenga derretendo na boca
surpreendendo com um surpreendente sabor de
eca
sai
a peça desfeita na saliva exige uma grande capacidade de persistência
feito isso, é esse broto que brota
feito o zaatar que esverdeou essa semana
e que parece que vingou e quer vingar
brota aversivo, picante, amargo, esquisito, forte de um jeito ruim
brota com dor, parecendo um novo trauma adiante
ou brota da dor, depurando, com seus espinhos, a película protetora
da membrana descontente que pede por descontenção
brota porque há um espaço
brota pedindo por mais espaço
e agora, o que eu faço?
deixo chegar?
- mas o medo é da partida
então deixo partir?
- na verdade, o medo é de que queira permaneçer
o medo afasta,
mal sabendo, a voz-deus-mau-interno-enlouquecedor,
que a hora que o wasabi chega junto com o sushi na boca
um novo desconhecido é reencontrado
e de repente
wasabi tem gosto de bolo molhadinho de nozes do meu aniversário
Talvez fosse eu a sereia da borra do café
à margem da falésia
com os cabelos arrepiados indicando uma queda
mas a cauda, sentada, hesita
Sensação de que algo não foi dito
será se ainda imaturo para se revelar?
O que seria?
Talvez uma tristeza tenha se instalado gota à gota
trazida pela chuva dominical
O céu perdeu suas cores há alguns dias
mas quando se está acompanhado
de si ou de alguém que o valha
resistem tons e sobretons celestiais
Talvez também seja a simples roda da vida
girando, bela
e afiada
feito makita
que grita
hipnotizando para o abismal suspense de como seria tocá-la
Mesmo não escorrendo o sangue fantasiado
os dedos coagulam-no em suas pontas
traumatizados pela pura idéia do trauma
Sei que isso tudo cabe a mim
e talvez
seja por isso que quem quer que seja
me colocou sentada nessa queda
sendo do mar, estando na terra, suspensa no ar
e aquele fogo
incendeia
dos sobes e desces
da impermanência da vida
hoje sou convidada a descer
dos verdes, amarelos
e, posso jurar, azuis
pedaços da Terra em seus olhos
hoje vi a fumaça de alguma floresta incendiada
afinal, quem provocou o incêndio?
provoca-lo-amos juntos
ou teríamos simplesmente nos atirado às chamas
já anteriormente acesas?
por sei lá quem
mas deve ser desse mesmo "quem"
o convite a descer
encerra mais cedo o cafuné maternal
tira minha coberta
abre as cortinas para uma luz ainda Jabez
o quem me diz para somente estar
ontem Clarice disse para marchar
fico no acampamento dos perplexos
perplexa por saber que a descida chegaria
mas perplexa por sempre acreditar que pode tardar
ou talvez, nunca nem chegar
estar sozinho e muito bem acompanhado
com o silêncio do ar puro
da água tilintante
dos cães das lágrimas
o pensamento sossega
distraído com a imensa beleza do céu pintado
deixa espaço para o sentimento
para a sensação e para a intuição
o corpo destenciona
lavado pela delicada força do rio
massageado pela areia ainda molhada da chuva forte
volta a ser corpo
a alma desperta
pede licença para entrar no rio, pede licença para adentrar a floresta
recebe benção dos encantados
derrete-se de um amor calmo
um amor brisa
um amor sol pós tempestade
um amor verde, bem verde, bem vivo
sou bicho
sou sozinha na cidade superpopulosa
sou multidão em ti, Amazônia
cada dia de um jeito novo
é tanta chuva despencando
o rio engorda, as árvores encurtam
os bichos ficam famintos de nos arrancar pedaços
para voltarmos em busca destes
nossa alma também é capturada
ressoa com o balanço das árvores e o canto das aves
no grandioso Céu, Deus pinta um novo quadro cintilante por dia
o horizonte aponta para nosso dentro
o contrário do horizonte é aqui
.
todo dia de um jeito meio igual
é tanto carro poluindo
o ar escurece, as árvores sufocam
nos tornamos bichos famintos de recuperar a inteireza
de relembrar sermos também natureza
nossa alma adormece narcótica
padece com a rigidez dos prédios e do grito engaiolado
no recortado Céu, o homem atrapalha a arte divina
o horizonte é mera ilusão
o dentro aponta para fora
Tenho medo da morte e custo a aceitar
Custei a notar
Custei a esconder, afinal
Custei, custei
Custei de mim
Justificando não mais querer crer em céu e inferno
Como fosse isso que me amedrontasse
Mas não é isso não
Pelo menos não só
E nem maior parte
É camada abaixo de camada de custos subaquáticos
É o medo de perder pai e mar
(curioso que escrevi mar, acidentalmente)
É o medo de perder o chão, a terra, o mar, o sorriso tenro, o olhar atento, o amor exagerado, o amor por vezes não justificado
de perder com a morte dos pais todos estes pedaços depositados na história e que tão bem lhes veste
Medo de me arrepender
De feitos, não feitos, desfeitos
De defeitos que jamais uma vida bastaria a concertar
Mas o medo sobretudo
Ou debaixo de tudo, pensando em camadas
É o de sentir amor
senti-lo verdadeiramente
E o grande segredo deste é que todos hão de
Deus,
Dai-me clareza para encontrar os céus e os sóis escondidos sob minhas carregadas nuvens
E coragem
Para enfrentá-las
talvez chorá-las em terra fértil
Até então mudas
Como respondesse “Sim”
Deus balança as águas do Tapajós em ondas que tilintam gentilmente e noutras que me molham por inteira
Deus segue:
- Começa assim mesmo: é banho gelado, corpo temido e tremido pelo ar da mudança, mas logo te aqueço
Confie
Retorno caminhando e logo encontro minhas pegadas da ida
Tento segui-las repetidamente
é confortável pisar na areia pisada
Até que por vezes o registro claudica, falta um dos pares
como que eu voasse entre uma e outra
Então mesmo quando parece que repito
também hesito
e nesse momento se faz a oportunidade de criar algo
em novo sentido
Daí-me coragem