sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

arvoresço

 De tempos em tempos troco minhas folhas

ora cresço

ora floresço

enraizo e me achego

cada vez mais aqui

cada vez mais em mim

cada vez mais matriz


De tempos em tempos

me aproximo do céu

não me meço

não me cobro

consinto a história carregada na semente

e nutrida pelo solo


Subo até onde puder respirar

me ocorre um fruto

Semeio

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

nunca nem vim

estou brava 

mas te agradeço 

por me ensinar algo que ainda hoje não sei o que é

mas sei que aprenderei 


não só graças a você 

graças também a mim 

e graças às leis de Deus que invariavelmente nos empurram à evolução 


obrigada por me mostrar que mesmo na minha perfeição, jamais serei perfeita 

que mesmo me esforçando em não me revelar prontamente em sombras e luz

mesmo assim

não significa nada, nada está posto

ou garantido

ou previsto


Não te controlo

Não me controlas 

Não te tenho 

Não me tens 


Sou quem sou

Mas te mostrei só um pedaço 

Pensando que te agradarias 

Que ficarias 

Que pedirias pra ver o que ainda não mostrei 


Mas você se foi 

Porque afinal 

Eu nunca nem vim

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

não


não nos apaixonamos

não nos amamos

não namoramos


beijamos 

combinamos

falamos

rimos


sobretudo

foi no respeito

que se ergueu o pilar da leve relação que existia, mas


se é suspenso o respeito 

está suspeito todo o resto

não pt. II

não estava apaixonada 

não alimentei fé

tinha fé em você e em mim, individualmente, mas


segui imersa em meu genuíno estado de Amor

torcendo por um amor iniciado-não-vivido

(mesmo não sendo meu, é Amor do mundo 

então é meu também

ou é em mim) 


o vidro se quebrou

não houve ventania alguma

não fossem as lembranças da nossa conversa. 


tropeçaram suas atitudes nas palavras

a dança desencontrou o corpo da música que tocava lenta

de repente era um vazio nomeando o novo espaço que começara preenchido. 



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

perdi o apetite

me servi do teu banquete sem fome, sem gula. 

claro, me apeteciam algumas frutas suculentas, 

alguns pães frescos, 

caprichos que eu nem sabia o nome. 


fui me servindo à medida que te servias, 

sem tantas assincronias.


Não quis te devorar 

Não quis ser devorada 


a decepção cala o prazer no instante em que me sirvo, sedenta,

de um caju reluzente, colorido, hígido

precipita em minha boca seu sabor, 

cria-se em minha mente não uma eternidade de cajus, 

somente esse caju, 

essa rodela que pretendi destacar. 


mas a faca não serra 

é de plástico o fruto


quem faz isso? 

engana com plástico em meio a sabores verdadeiros? 


pois cruzei paralelos os talheres sobre o prato 

perdi o apetite

domingo, 20 de dezembro de 2020

casquinha

 Me restam pequenas casquinhas


Respirar

Esperar


Escondidas na raíz da coxa 

marcas suas

cicatrizes minhas 


Fosse criança, arrancaria a ver ressangrar 

Fosse curiosa, comeria a descobrir o sabor do próprio sangue 


Se passo a unha onde antes arranharam as suas

A casquinha teima em ceder

E quando cede, 

embaixo há uma pele muito clara, muito virgem do sol quente que me empurra da cama 

tão cedo


O que será dessa mancha ainda despigmentada 

Representação do espaço que nos foi colocado 

Estaria ela preparada para a claridade 


Posso ouvir a passagem do tempo só de olhá-la

Me agarro às sobras de sangue seco e endurecido 

Contemplo, celebro, lamento, relembro 

Respiro

Espero

Ocupo


Desrespiro 

Desespero 

Desocupo


- Tira isso da boca, menina

Não se pode comer o próprio sangue 

Mesmo que seco 

Ferida é pra deixar estar

terça-feira, 20 de outubro de 2020

amorana (ou amorna)

 

Deus bem conhece

o pedido da pequena 

por onde vagueiam os pensamentos, religiosamente, ao encostar no travesseiro 


Deus bem viu muitos sonhos acordada

costurou, também, em colagem, muitos outros adormecida 


E esse sonho vale de que? 

Vale ainda? 


Deus pouco mostra do vir a ser 

Misterioso 

Observador  

Centelha que arde no coração no momento do transcender


o corpo físico não mente 

as emoções não mentem 

a angústia é o único afeto que não engana 


E o amor

Será que engana?


Adormece

Amortiça

Amortece

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

choro no leito onde a libido flui em excesso

 rio nas efluências equilibradas dos os rios da intenção

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O Sol e as nuvens

 (de um lindo sonho, rico em detalhes, em cheiros, em cores e em sensações)

Nele vou viajar para a praia com ela

Eu e ela estamos muito próximas, em um sobe desce, nos fazendo companhia.

Chegamos à casa beira mar, um Sol lindo lá fora, um céu de brigadeiro e tudo o que queremos é descer para o mar.


Mas a gente enrola, enrola procurando qual chinelo entre quatro pares de chinelo levados,

a gente enrola porque pessoas desceram correndo a escada e fomos ver quem era,

a gente enrola porque decide passar no mercado e comprar comida para o jantar;

e cada vez que a gente enrola, o Sol vai desaparecendo e aparece uma nuvem, uma nuvem mais escura de chuva, e vento. O mar em ressaca, víamos distante o encontro da água com a areia.


A sensação é a de que a gente só tem aquele dia e que não estamos sendo capazes de aproveitá-lo verdadeiramente.

O Sol vai escapando debaixo do nosso nariz, o Sol! 

Em algum momento olho novamente e o mar está cheio, tão cheio que suas ondas parecem quilométricas, as gotas das suas quebradas respingavam em nós, de dentro da casa. O mar vinha até mim.

Mas eu? Ainda não ao mar.


- Pega o chinelo, pega a chave, fecha a casa, vamos, vamos para o mar, desce.

Ela quer ir ao mercado, claro, o que você quiser eu farei. Vamos, no meio do caminho passamos no mercado para comprar ingredientes do jantar.

E o mar e o Sol nos esperando lá fora.


A gente senta para almoçar, pedimos cervejas, pedimos caipirinhas, e o mar, deixa ele esperar.

Enfim, vamos ao mar, mas para isso precisamos passar por dentro de uma loja enorme - de chinelos havaianas - onde havia duas saídas para a areia.

O Sol está quase lá

E quando chego perto do Sol, muitas pessoas indo e ainda mais pessoas voltando, 


Eu escorrego, rasgo meu braço esquerdo e meu peito em algo pontiagudo, descendo de mim uma pele pendente que parecia uma asa sangrenta.

Essa ferida não dói tanto quanto ela é feia 

Ela não dói tanto quanto era decepcionante porque, mais uma vez, o Sol fica para depois

E as pessoas dizem: vamos, temos que cuidar disso

E eu penso: mas como vou tomar Sol com essa asa enfaixada? Teimosa, quero a opinião de algum cirurgião, na esperança que me dissessem que não era necessária sutura e que a cicatriz se daria por segunda intenção.


E mais uma vez, o Sol cada vez mais longe, o céu cada vez mais chuvoso então

Decido olhar para a ferida e só para ela, já desistindo do Sol.


Nessa hora chove, mas chovem notícias

Más notícias

Alguém morreu dia três de setembro e foi encontrado dias depois

Outro alguém desapareceu


- O que era vontade de ver Sol, tudo o que vimos foi sangue.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

concentra-se

 a passagem terrena é prenúncio de novos tempos

sóis e girassóis

e nós

e também as nuvens sobrecarregadas de si mesmas 

choverão

as flores se inundarão

deixando para trás sua abundância primaveril

abrindo espaço para o verão

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

pegadas do lamento

 

entendo seus nãos

tento vivê-los como fossem meus

empresto de volta em formas secretas, fictícias, fascímoras e venenosas


me pico para conhecer o sabor e o torpor

saio atrás das suas saídas

para caminhar lamentando as pegadas

mas deixo aberta a porta

para seguir as minhas 


de volta ao ninho

ninho vazio de você

ninho cheio de mim

ninho do talvez


                        escrita intuitiva 30.08.20

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

que sou seu par em nossa mesquinha vileza, sabes disso?


sabes que mesmo quando meu verbo escolhe contar das belezas e das riquezas, não tento me esconder


são horas em que presto por orar internamente, a encontrar no silêncio e na paciência a solução 


são horas em que desejo te poupar de receber de minha inundação mais gotas para a sua 


amo você, com e sem suas máscaras 


com e sem as minhas 


amo você príncipe e amo você vil




        



               - do baú

domingo, 6 de setembro de 2020

Posso sentir isso 

parece que estamos num furacão,

o meu alimenta o seu e vice versa 

mas que bom que nosso amor faz isso também, pelo menos beija a ferida aberta


Com uma saudades, uma nostalgia e uma certa anestesia em grande parte do dia 

Está corrido também 

Parece até obra da providência pra não me deixar sucumbir




        



               - do baú

sábado, 5 de setembro de 2020

escapismo

Sempre me acompanharam duas ideias, 

duas palavras de som gostoso: escapismo e solitude.

Faltassem-nas significado, já me continha com sua sonoridade, mas quando as digo e ouço, mergulho.

Mergulho no devaneio, me fascino na fuga, me invoco na porta que abre pra fora (ou pra dentro, ou pra cima, ou pra uma direção nunca antes descoberta pela física). 

E me encanta o estar só, e sentir-se tudo. 
Só e tudo, não é isso o tal da arte de viver? 
Tem quem chame nirvana, alguns plenitude e outras lindas palavras também.

Mas qual a graça de se tirar o "só" e o "tudo" de uma única palavra? .

Me lembro agora, há outra palavra que amo também: tilintar. 

Talvez seja isso seja tudo: tilintar sons do só, sons do tudo, escapando juntos

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

luas e lados



São nódulos femininos

Abalos peregrinos
polindo crateras

Fissuras de clarão
sólidas
císticas
quintenscenciadas
Cercadas por escuridão

Se inseguros
Atentem-se aos ouvidos
É o prenúncio de novas eras